Monday, November 18, 2019

Proust e a Ressurreição da Carne

Proust é considerado agnóstico, por não declarar, com todas as letras, ter fé em Deus. Mauriac chega a dizer que Deus está ausente da Recherche. A palavra 'Deus' pode estar, nao a presença divina. E a palavra, na verdade, enquanto conceito, é ausencia. Nao mostrou Hegel que o absolutamente presente é indizivel?
Proust diz que um livro com teorias é como um objeto com a marca do seu preço, (nao o objeto em si.) O objeto apontando para uma avaliacao numérica de si, no lugar do seu proprio valor. Como disse Oscar Wilde, o cínico sabe o preco de tudo e o valor de nada.
Ao invés de afirmar sua fé, Proust transmite a sua experiência dessa fé, de modo que o leitor a vivencie dentro de si mesmo. Ao escrever, Proust não tem fé, ele se torna fé. Ao inves de acreditar em Deus, de se apoiar numa frase de crença, ele vivencia o divino.
Em sua experiência do espírito, no “Le Temps Retrouvé” ele se descreve, enquanto que narrador da sua obra, como o homem arrancado da cronologia do tempo, o homem que só pode encontrar seu prazer e nutrição na essência das coisas; o ser que só se revela quando, através de uma identidade entre o presente e o passado, ele vem a se encontrar no meio atemporal, o único em que pode subsistir.
Mas nessa atemporalidade, Proust inclui a dimensão física de sua experiência, o que lhe vem pelos sentidos do corpo, as sensaçoes que lhe transmitem a  eternidade do que viveu. Fisicas e particulares, quando elas, que foram vividas no passado, irrompem no presente, criam momentos eternos. Como quando cheiramos um perfume, depois de muitos anos em que seu perfume é esquecido, ele nos traz de volta o tempo passado em que nos era habito, com uma intensidade maior do que a do presente.
Estando assim, numa fração de segundos, nem lá, nem cá, ou, por outra, lá, e cá, (no passado e no presente), sentimos o prazer que resulta da experiência de identificação entre o que ja foi e o que ainda é, quer dizer, o prazer da libertação da própria cronologia do tempo,  deleite de uma absoluta liberdade, e ainda assim, da familiaridade immemorial do reencontro com a eternidade. Por isso Proust diz que o verdadeiro paraíso é o paraíso perdido.
Mas o reencontro com o paraiso não pode ser alcançado pelo pensamento puro, ou pela memória voluntária, pois tem origem numa sensação física, causada pelo inesperado encontro com um objeto material no nosso caminho. Assim Proust dá prioridade `a concretude da dimensão física na própria busca da essência, ou elemento atemporal: na busca do espírito.
O instante transcendente em que o passado ressuscita, sendo vivenciado no presente, é também a ressurreição da fisicalidade desse passado. Mantendo o elemento temporal na própria atemporalidade, t diz: “ Tantas vezes na minha vida, a realidade me decepcionou porque, no momento em que a percebi, minha imaginação, o único órgão que goza a beleza, não podia se aplicar a ela, devido à lei inevitável que só nos permite imaginar aquilo que nao esta presente. Mas eis que de repente, o efeito dessa dura lei se encontra neutralizado, suspenso, por um maravilhoso expediente da natureza, que espelhou a mesma sensação no passado, o que permitiu minha imaginação apreciá-la, e no presente, quando a afetação dos meus sentidos pelo objeto que causou essa sensação, adicionou, ao devaneio da imaginação, aquilo que geralmente não se encontra nele: a idéia de existência, permitindo, graças a esse subterfúgio, que meu ser obtivesse, isolasse, imobilizasse, o que ele nunca percebe: uma parcela de tempo em estado puro.
O ser que renasceu em Proust quando, com tal tremor de felicidade, ele experimentou sensaçōes passadas tornando-se presente, só se nutre da essência das coisas, e só nelas  encontra a sua subsistência.
“Que um barulho que já foi ouvido, um odor outrora respirado, sejam novamente vivenciados no passado e no presente de uma só vez, tornando-se reais sem ser atuais, ideais sem ser abstratos, a essência permanente e habitualmente escondida das coisas é liberada, e nosso verdadeiro eu acorda, se anima, ao receber o alimento celeste que lhe é trazido. Um instante tirado da ordem do tempo recriou, em nós, para senti-lo, o ser tirado da ordem do tempo.”
Para resumir, esse ser atemporal, que prova o alimento celeste a ele trazido, se encontra, por um instante, no estado em que suas sensaçōes físicas se tornam reais sem ser atuais, ideais sem ser abstratas: no paraíso.
Em outras palavras, essas sensacōes físicas são concretas, e sem se localizarem no presente cronológico, são também ideais.  Tal realidade física e portanto material, a qual, entretanto, não pertence `a ordem do tempo, é a ressurreição do elemento físico, e o instante liberado da cronologia do tempo (que Proust chamou de tempo em estado puro) concerne a existência concreta porém transcendente: a  ressurreição da fisicalidade, da particularidade, ou da carne.
O narrador atemporal de Proust, aquele que só vive da essência das coisas, (o nosso verdadeiro eu) é aquele que através da ressurreição das suas próprias sensações, tem a experiência de um flash do paraíso: ele é a alma de cada um de nós.

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