Friday, November 8, 2019

Feliz Ano Novo 2018

Quando me mudei para os Estados Unidos, estava longe de imaginar que na vista de muitos, “virei a casaca”.  Me tornei  cidadã americana para facilitar minha situação legal de mãe de familia americana, pois não me considero pertencente a nenhum país ja que acho qualquer pessoa um cidadão da humanidade.
O motivo que me faz ver em cada um o individuo que é acima de condicionamento e circunstancias é o fato de que o meu imediatismo fala mais alto e nunca fui capaz de avaliar alguém através da sua cultura, nunca foi natural pra mim "contextualizar".
Voltando `a minha mudança radical, quando fui primeiramente morar numa cidade rural em Iowa, que tinha somente 60 mil habitantes, muitos achavam que não iria dar certo. Sair do permissivo Rio de Janeiro para um lugar pequeno, provinciano, super católico, considerado pelos próprios americanos como a cidade mais racista do país, pra estar com um cara de formação completamente diferente , não poderia dar certo. Todos viam o contexto acima de tudo, enquanto eu so via o nosso caso individual. Eu e o cara nos apaixonamos, eu confiei nele e percebi que ele apreciava o filho que eu ja tinha e que trouxe comigo. Ponto. O que se passaria entre nossas quatro paredes era o que contava.  Morei 14 anos naquela cidade, e não foi fácil mas nada é fácil em lugar nenhum. Nesse sentido, deu mais certo pra nos do que da pra muitos que sao da mesma cultura e se juntam. O frio, que `as vezes chegava a 30 C abaixo de zero, não era problema, mas era sufocante a mentalidade paroquial das pessoas, o fato de não haver estrangeiros, e o clima “incestuoso” de um lugar em que não existe anonimidade e todos viram o juiz do proximo. Meu sotaque envergonhava meu filho, quando ele estava naquela idade em que as crianças esperam que seus pais sejam como todos os outros. Uma vez, telefonei para a casa de um amigo dele, pra saber quando deveria busca-lo, e foram lhe dizer que alguém que “não falava ingles” queria falar com ele. Aquilo foi suficiente para ele me dizer furioso que não telefonasse mais pra casa dos seus amigos. Não sei se tive mais pena dele do que de mim mesma, quando fui chorar o caso ao meu marido. “Mas voce fala ingles muito bem!” ele disse.
Varias vezes pensei em fazer minhas malas pra voltar pro Brasil, e se isso não aconteceu, foi porque “as quatro paredes” ainda estava dando certo, e mesmo que aos trancos e barrancos, se sobrepondo ao contexto. A minha diferença não deixava de ser bem acolhida pelos locais, que me olhavam como um ser exótico, um animal interessante no zoológico.
Lá, so tinha um shopping caindo aos pedaços e um cinema onde o ar era sempre viciado. E so mostrava blockbusters americanos. Mas tinha tambem uma pequena estação de sky, e pra ficar em contacto com a natureza, me lancei no snowboard já na meia idade, quando Olivia, a filha que tive naquela cidadezinha, era ainda bebê. Mesmo assim insisti no snowboard durante cinco invernos e parei na emergencia médica em todos os cinco. No primeiro, quebrei o pulso e passei três meses com o braço engessado. Para trocar a fralda de  Olivia tinha que usar um braço de um lado e a boca de outro, como um cachorro. Mas insisti no esporte, ate cair a ficha de que sem poder contar com ninguém pra me ajudar a cuidar de Olivia, eu não podia me dar ao luxo de me machucar.
Depois de morar naquela cidade durante catorze anos, vi que Olivia estava sendo discriminada pelas amigas, porque eu tinha a escultura em mármore de um casal nu que papai fez, exposta  na minha sala. A principio, eu mostrava a escultura com orgulho para as pessoas, sem a menor ideia de como se chocavam, quando desviavam os olhos dela. A mulher do casal vizinho, cuja filha era amiga de Olivia, condenava ter de me ver de mãos dadas com meu marido na varanda. Vim a saber que ela declarou que nos nao éramos bons exemplos para crianças. E era uma mulher metida a alternativa, que pregava Yoga e meditação, e aliás, gostava de encher a cara. Acho que eu fiquei dez vezes mais chocada com ela do que ela comigo. Mas o que interessa é que percebi que se não saíssemos de la, Olivia eventualmente começaria a me discriminar em favor dos amigos, ou discriminar os amigos a meu favor.
Assim se iniciou, para nossa familia, uma série de mudanças pelo país, e viemos, finalmente, parar em Boulder, essa bolha meio que fora da realidade americana, cheia de pseudo iluminados, estudantes, maconheiros, e esportistas.
O nosso caso individual continuou a se arrastar. Lenta e dolorosamente, acabei reconhecendo a influencia do contexto sobre nos e os outros. A força das diferenças culturais, e de tudo que não é nem eterno e nem inato. O que torna os Estados Unidos um país odiado ao mesmo tempo que admirado, copiado,  e forjado, e que faz aqueles que vem morar nele ficarem “suspeitos” para muitos. Percebi o que me fez ter pena dos mexicanos do resort em Tulum de onde acabamos de chegar, no seu desespero de replicar uma realidade americana, que de México não tinha nada.
Assim como a intensidade atemporal que as ruínas Maya transmitem, sobrepondo-se `a profanidade do nosso  mundo,  continuo acreditando no poder de cada um daqueles empregados do resort, se quiser e se ousar,  se sobrepor ao seu contexto descaracterizado. E com essa fé em cada um, cada qual, desejo a todos Feliz Ano Novo!

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