Saturday, July 18, 2026

Sagrado Feminino e Sagrada Beleza

 

Outro dia, eu estava pensando na diferença entre a atuação de Ingrid Bergman, em Gaslight, e a exagerada, obsoleta e ridícula, de Charles Boyer. Parece comum, em filmes feitos até as primeiras décadas do século passado, as heroínas , como Greta Garbo, Marlene Dietrich, Joan Crawford, Ingrid Bergman, Bette Davis, as mais recentes Grace Kelly, Kim Novak, Audrey Hepburn, continuarem, aos olhos de hoje, musas, enquanto os atores que contracenam com elas parecerem canastrōes. Cheias de glamour, sedução, doçura e beleza, elas são insuperáveis, e qualquer atriz moderna se sente orgulhosa quando comparada a alguma delas .  Talvez a diferença de qualidade entre a maioria dos atores e atrizes do passado tem a ver com a credibilidade do papel que representavam. Enquanto os homens eram machōes, as mulheres eram simplesmente femininas. Enquanto os atores personificavam um comportamento ultrapassado, as atrizes  mostravam qualidades que fazem parte da essência feminina, anima; inspiração. Ingrid Bergman representa inocência , entrega, e doçura. Greta Garbo é mistério e languidez. Audrey Hepburn e Grace Kelly têm a altivez e majestade de uma realeza inata.
A diferença da condição física entre os sexos é real. O fato de que a mulher se entrega e o homem "possui", a mulher é penetrada e o homem penetra, faz com que ao menos durante o ato, ela seja passiva e ele ativo. E o homem, sendo mais livre de altos e baixos hormonais e de todo o aparato da gravidez, é também mais desimpedido na ação.
A passividade é necessária `a contemplação e não à ação, que é constante transição. A passividade é o que permite a capacidade de ser modelo para o artista. Através dela, a mulher não é so incentivo de conquista, mas de imaginação.
O ser ativo esta mais escravizado pelo tempo, e o contemplativo, pela essência. Enquanto a mulher é musa e inspiração, ela nutre o espirito do homem e o seu poder de ação. O verdadeiro homem é reverente. Sente-se engrandecido ao se ajoelhar diante da musa. Se ele é o provedor material, quando inspirado pela mulher, recebe o que não tem preço.
A consciência dessa grandeza na relação entre os dois sexos se expressava na deferência do homem bem educado, que cedia seu lugar a qualquer mulher dentro de um ônibus cheio, carregava os seus pacotes na rua, abria para ela a porta do automóvel, e lhe mandava rosas. Hoje, isso também é visto como sexismo. O mesmo para a caracterização da mulher pela beleza. Vamos deixar a hipocrisia de lado e admitir que a beleza é bem-vinda na caracterização de tudo. A beleza, esse sinal verde para qualquer ser muito antes das palavras.
Quem não gosta dessa benção do silencio?
Dizia o poeta que, na mulher, a beleza é fundamental, e as feias que o perdoassem. Mas do momento em que haja desejo entre os sexos, a mulher, feia ou bonita, vira musa. Por isso, Proust, que era o grande amante da beleza, ja dizia que mulher bonita é para quem não tem imaginação. Para ele, beleza e imaginação andam de mãos juntas.
A beleza sempre surpreende por exceder o que se esperava ver. Quebra a expectativa criada pelo habito, que nos botava naquela rotina da percepção do mediocre, aquele estado meio sonambulo de não esperar excelência no mundo visível. Quando a excelência chega com a beleza, a mediocridade dessa atitude habitual se estilhaça. É então que a imaginação vem prover a estrutura para conter o que se percebeu. Ou ao menos, ilustrá-lo.
A beleza conta estórias, desperta narrativas; não se limita ao que mostra aos nossos olhos.
Inversamente, a imaginação, ao criar a narrativa, também pode criar a beleza.
Depois desse pequeno desvio, sigo pensando que a mulher e a sociedade não devem confundir necessidade de respeito entre os sexos com a vontade de os igualar, justamente nessa época em que o natural merece reconquistar seu valor e autenticidade. Testosterona in influencia agressividade, e estrógeno influencia entrega. A mulher se abre; o homem entra. Enquanto armas são saliências, as formas acolhedoras, como o lar, os lagos, os ambientes calorosos, são reentrâncias. A criação e a própria vida dependem do equilíbrio dessa oposição, e não da sua anulação. A diferença deve ser reverenciada, e não simplesmente usada, como fazem os machões obsoletos.
O sagrado feminino é por definição o reconhecimento de que Deus não é homem ou mulher, mas essência divina que equilibra e unifica o principio masculino e o feminino.
As qualidades personificadas nas atrizes que citei são atemporais, e honram melhor a necessidade de entrega e acolhimento uterino, da parte da mulher,  como solicitam, do homem, a reverencia.  A mulher não deve reivindicar respeito por se igualar ao homem fisicamente e competir com ele. Ao contrário. Assumir a diferença não a impede de ser uma profissional com direito de ganhar o mesmo que ganharia um homem.
Ao invés disso, consolos imbecis acontecem. A ortografia abandona a possibilidade do artigo masculino abranger os dois sexos no plural, e sofre visual e sonoramente ao especificá-los. Ficaria ainda mais esquisita, entretanto mais lógica, se ao invés de dizer, por exemplo, falando do reino de Deus, “…o reino dele/dela…” como ja li muitas vezes, dissesse, “…o reino de ele+ ela”, ou quem sabe, “o reino delea , misturando ele + ela.
Se queremos ser politicamente corretos,  a inclusão da homossexualidade na essência divina também faria sentido. Para mim é mais fácil imaginar Marcel Proust sendo parte dela do que Donald Trump, ou Hillary Clinton. Embora não seja a mesma coisa, divindades hermafroditas existem historia afora. Mas se buscamos essências para se referir ao divino, quanto mais se especifica, mais grotesco fica. Nesse caso, melhor deixar que o artigo masculino abranja todas as especificações.

Friday, July 17, 2026

A Iminencia da Vida

 Um dia, sonhei com uma estrela boiando no azul aguado do anoitecer. Única, aquela deslumbrante esfera de luz transformava toda a extensão celeste que a rodeava em sua exclusiva moldura. Primeira a marcar o céu, ela era conclusão do nascimento; puro mistério entre fim e começo. Sob um sentimento de respeito quase petrificante, refugiei-me no mundo do conhecido e pensei que aquele corpo celeste era a estrela Dalva. Venus, eu conheço voce, sei o teu nome, não tenho medo. Sem piscar, a luz radiante do círculo prateado, em ininterrupta continuidade, era definitiva.

Venus… estrela Dalva, só pode ser. Mesmo que o seu brilho milagroso e único nesse céu me assuste, voce é familiar; não vai me levar para dimensões desconhecidas, ou me trazer pensamentos estranhos, imaginei.
Mas a estrela começou a crescer, até atingir o tamanho de uma bola de bilhar, e ficou azulada, como a terra vista pelos astronautas  a grande distancia. Hipnotizada por minha própria admiração , consegui pouco a pouco discernir rios, florestas, continentes e mares nomeados individualmente na superfície deserta daquele corpo celeste, como se Deus lhes houvesse batizado antes de se tornarem solo para a civilização. Um novo planeta era anunciado, pronto a ser povoado. Pessoas poderiam pisar naquele corpo celeste, e começar um mundo novo.
A disponibilidade daquele ser perfeito do céu me confrontava com a iminência da vida, e me causava uma indescritível vontade de chorar. Aquela esfera perfeita e azulada, imaculada e nova flutuando no azul trazia a tristeza de ser só, e a alegria de ser única.
“Estrelinha, por que voce quer abandonar a sua completude? Pra que voce quer virar solo a ser cultivado e terra a ser trabalhada, ao invés de continuar sendo uma joia intocável? Por que tornar a sua pureza acessível, abandonando a majestade que vc tem no céu?
Minha estrela, ainda sem mácula, estava pronta para virar chão. A iminência da vida , no medo do mistério e na alegria do milagre, é reverencia diante da inocência, e do imprevisto. Abandono da perfeição pela posse de um destino, promessa de integridade no sofrimento da separação, ela é a ambivalência da liberdade.
Aquela esfera sagrada estava pronta para repartir o seu ser: a iminência da vida é a concepção de um bebê.
Estrelas nascem, iluminam, tornam-se unidades isoladas em toda sua plenitude, ao mesmo tempo que  generosidade no brilho que compartilham. Não vem também disso, a beleza de um céu estrelado? Da novidade sem fim de cada estrela, ao mesmo tempo que a ligação de todas no infinito que lhes fez nascer?
A iminência da vida. Tremenda fé da criatura, enorme generosidade do criador. Na entrega de ambos, um se separa do outro, fazendo, da distancia que os distingue, promessa de comunhão.
A iminência da vida é o gesto de desapego e grandeza da mão de Deus pintada por Michelangelo ao criar o homem na separação de Si; na permissão de um adeus que se transforma num encontro de dois seres; O mesmo gesto que trazemos no fundo do coração, do momento em que aceitamos ser a estrela do meu sonho, a oferta de solidez para nossos semelhantes, a semente no ventre de nossa mãe. Um novo brilho no céu.

 Um dos meus sonhos em criança era segurar um passarinho. Pra mim, eles eram como brinquedinhos vivos, nascidos do verde das árvores e do azul do céu, numa alquimia tão delicada que a gente so podia olhar pra eles. Os que se vendia na época, tinham que ficar dentro de uma gaiola, e isso me dava aflição, mas que fazer?

Eu era ainda bem pequena e nem falava direito, quando resolvi fazer um poema, o do passarinho. Eduarda, minha irmã mais velha, era uma poeta consagrada, e achando ela o máximo, tentei ficar `a altura. Estava olhando pro céu, e de repente anunciei pra nossa mãe o meu nascente poema: “O papainho voou, Foi pousar lá na lua…” (A lua era o lugar mais alto que eu podia imaginar, e fazendo uma pausa, a do pouso do passarinho, pensei como ele iria viver e agir. Imaginando-o pousado num galho muito alto da mangueira gigante do nosso jardim, pulando de lá pra cá, e continuei: “O tabaio(trabalho) do papainho, é pa la e pa cá… o nome da Eduarda!”
Me lembrei disso, quando o nosso passarinho Marley decolou deste mundo, há dois dias. Ele pertencia `a minha filha Tweety, e estava conosco por mais de dez anos. Era um connure, nativo da America Central, e parecia um papagainho. Pegou uma gripe, e Tweety o levou pro veterinário, que recomendou um hospital de animais, numa cidade perto daqui de Boulder.  Pra la ele foi, e mesmo que o vet tenha avisado que ele poderia não sobreviver os exames, nosso passarinho resistiu até sedação pra tirar raio x do pulmão. Fomos visita-lo no dia seguinte, e ele tinha melhorado muito. Do jeito como ele adorou nos rever e encostou sua cabecinha no rosto de Tweety, pensei que breve estaria pronto pra voltar pra casa, Na minha vez de segurar ele, conversamos muito. Com ele deitado de barriga pra cima na palma da minha mão, como costumava fazer, eu lhe dizia que tinha valido todo aquele esforço de pernoitar la, de ser examinado, e ele fechava os olhinhos.
Compramos Marley em Madison, e ele se tornou uma fonte de humor, comunicação, e carinho, pra Tweety e eu. Realizou o meu sonho de segurar um passarinho, e muito mais. Era lindo ver como um serzinho tão pequeno sacava que lhe dávamos amor e correspondia, com uma infinidade de pios e expressões diferentes. O mais incrível é que ele até se mostrava pra gente. Um dia em que Tweety e eu comentávamos o seu poder de compreensão e as suas proezas, ele, que estava empoleirado no ombro dela, desceu pra cama em que nos sentávamos, e começou a desfilar entre nós duas, de lá pra cá, e daqui pra lá, com a cabeça erguida e o peito estufado, todo pimpão. Tava na cara que se sentia honrado, e queria nos mostrar que merecia e entendia o nosso apreço.
Aquele “show” era tão fofo que a gente não conseguia parar de rir, e ele de se mostrar.
Proibi que lhe aparassem as penas das asas, pra ele poder voar pela casa, e ele adorava pousar nos lugares altos e ficar lá de cima olhando o que acontecia. Em Madison, sobreviveu a batida de uma porta no seu bico. Ja era mais tarde do que meia-noite, e ele até tinha sangue do lado do bico. Mas corremos com ele para uma clinica de emergencia. O vet disse que ele devia estar com dor de cabeça, lhe deu um analgésico, e decidiu que era melhor ele passar a noite lá. Pensei no misterio de uma dor de cabeça caber dentro daquela cabecinha, e me senti entre o riso e as lagrimas. O vet informou que se ele não vingasse, nos telefonaria de manhã cedo. Rezei pra não ouvir o telefone, e la pelas dez eu própria telefonei. Marley estava pronto pra voltar pra casa, novo em folha.
Depois de viver cinco anos em Madison, resolvemos mudar pra Boulder. O vet. avisou que pássaros são muito sensíveis, e que não esperássemos que Marley sobrevivesse uma mudança de estado, de cidade e de casa, pois até pras pessoas mudança é estressante. Tínhamos também um cachorro shitzu super apático, e resolvi dar pagamento extra a um dos caras que empacotou nossas coisas, pra trazer os dois no seu caminhão numa viagem especial lá de Madison, quase no norte do país, para Boulder, no centro Oeste. Steve ficou chocado. Sempre me disse que americanos so fazem o trabalho que a sua profissão determina, e que aqui nos Estados Unidos não tem essa de oferecer mais grana pros caras darem “um jeito”. Mas aquele cara adorou a proposta, e pagamos o suficiente pra ele pernoitar com os animais em algum hotel de estrada. Preferiu vir direto, e chegou bem antes do esperado, com as pupilas dilatadas por algum “speed” que deve ter tomado pra conseguir dirigir a noite inteira, mas conseguiu trazer os bichinhos a salvo. O cachorro de esquisito que era, pirou. Entre inúmeras tentativas de fuga, só fazia lamber as paredes da casa que alugamos, com uma devoção religiosa. Nem comer ele queria. Suas escapadas pra rua movimentada em que morávamos eram uma calamidade, fazendo os carros frearem ou se desviarem dele `a ultima hora. Mas um dia, conseguiu fugir de vez e alguém o levou para a Humane Society. Deixei que alguém o adotasse. Ja tínhamos ganho a cadela do meu filho, pois ele estava acabando a universidade em Boulder e se mudando pra California.
Ela era uma ameaça pra Marley. Achava que ele era caça, e ficava super confusa com as broncas que levava quando tentava dar botes nele. Um dia, Tweety (AKA Olívia) saiu às correrias, esquecendo que ele estava solto no seu quarto, e largando a porta aberta. Nossa! Nala, a cadela, praticamente mascou o passarinho. Tweety o encontrou debaixo da mesa do seu computador, quase totalmente depenado, as costas em carne viva, e as asas cortadas pela metade. Quando o vi, quase tive um ataque do coração. Já era tarde da noite, mas corremos pra emergencia de animais. A veterinária veio com aquele papo de stress, pra nos avisar que seria difícil Marley sobreviver. Radiografou-o e disse que não tinha quebrado nada, mas deveria passar a noite imóvel, com uma camada de remédio nas costas que ele não podia bicar nem comer. Acho que Nala “brincou” com ele, e a voz da consciência fez com que ela o poupasse, pois a mandíbula de Rotweiller que ela tem parte qualquer brinquedo à prova de cachorro.
A veterinária me devolveu o passarinho com uma gola de plástico em volta do pescoço, pra que não pudesse bicar a camada de remédio nas costas dele. Aí sim, ele se estressou. Começou a pulular desequilibrado, quando o coloquei sobre uma mesa de exames para pagar a mulher. As tentativas daquele bichinho se livrar daquela gola eram inúteis e incessantes. Tive que remove-la. “ He can’t have access to the medicine!” a mulher repetiu, "But this stress will kill him!", respondi, vendo que teria de mante-lo entre minhas mãos ate o dia seguinte. Durante a noite, o alojei entre os meus seios, e ele dormiu numa ótima debaixo de a minha blusa, e minha mão levemente sobre ele para que continuasse seguro. De manhã, o remédio ja tinha sido absorvido, e ele pode se recuperar na gaiola. Pra ele, stress não existia, só amor.
Durante os anos aqui em Boulder, ele também sobreviveu duas tentativas de fuga, uma no inverno, e outra no verão. Tweety o viu saindo pela porta afora, e pousando la no alto do galho de uma árvore. Subindo no telhado do vizinho, ela o chamou, e ele voltou pro ombro dela. Isso aconteceu no inverno, e ela achou que foi o frio que o fez voltar, mas no verão ele agiu do mesmo modo, quando ela o encontrou la no alto de outra árvore, rua afora. Muito fofo.
O passarinho revelou coisas lindas pra gente. Morando numa sala ao lado do quarto de Tweety, ele, mesmo sem ve-la ou ouvi-la, começava a piar assim que ela abria os olhos de manhã. Simplesmente adivinhava o momento em que ela acordava.
A percepção dos pássaros é telepática, e a inteligência deles vem de outra dimensão. Se dar conta disso é aceitar um lindo mistério e se livrar um pouco da auto- importância da nossa espécie humana, que pensa poder explicar os animais por inteiro através da biologia e da pura necessidade de sobreviverem. Essa auto-importância nao suporta o mistério, o que está alem dela.
“Entendendo” e apreciando o carinho que lhe tínhamos, e se botando disponível de uma maneira que seria impossível no elemento natural, ele confirmou que o amor é a única linguagem que desarma, cura, e fala a todos os seres. O amor, maior poder de individualização, vê em cada um, por mais pequeno que seja, o mundo que é em si, içando-o do anonimato e o fazendo renascer.
Durante rituais de Ayahuasca aqui em casa, eu saia da sala e ia conversar com Marley, pois os animais “sentem” a força do sacramento da floresta e se portam diferente. Numa dessas vezes, eu me dei conta de como ele estava mais bonito e vistoso. Era primavera, e a extensão vermelha do seu peito tinha se acentuado na forma de um coração,  vibrante e chamativo. A natureza embelezara o passarinho pra que ficasse mais atraente, como faz com os animais nessa época de acasalamento. Fiquei triste, pensando que a beleza de Marley não lhe serviria pra namorar, e fiz questão de lhe dizer que mesmo assim ela não era vã, “ Voce está lindo passarinho, não pensa que a gente não nota e não aprecia esse seu peito lindo e todas as cores que voce tem!” Eu lhe disse.
Empoleirado no alto de um armário, ele ouvia com atenção. E mais um mistério: Tenho certeza de que entendeu, assim como tenho certeza de que, quando Tweety veio me dizer que o veterinario tinha telefonado pra avisar que Marley tinha partido, ele me ouviu dizer pra ela: “Ele foi pousar lá na lua pra de lá voar pro paraíso!”

Monday, November 18, 2019

Proust e a Ressurreição da Carne

Proust é considerado agnóstico, por não declarar, com todas as letras, ter fé em Deus. Mauriac chega a dizer que Deus está ausente da Recherche. A palavra 'Deus' pode estar, nao a presença divina. E a palavra, na verdade, enquanto conceito, é ausência. Hegel ja mostrou que o absolutamente presente é indizível.
Proust diz que um livro com teorias é como um objeto com a marca do seu preço, (não o objeto em si) mas o objeto apontando para uma avaliaçāo numérica de si, no lugar do seu próprio valor. E como disse Oscar Wilde, o cínico sabe o preço de tudo e o valor de nada.
Ao invés de afirmar sua fé, Proust transmite a experiência desta fé, de modo que o leitor a vivencie dentro de si mesmo. Ao escrever, Proust não tem fé, ele se torna fé. Ao invés de acreditar em Deus, de se apoiar numa frase de crença, ele vivencia o divino.
Em sua experiência do espírito, no “Le Temps Retrouvé” ele se descreve, enquanto que narrador da sua obra, como o homem arrancado da cronologia do tempo, o homem que só pode encontrar seu prazer e alimento na essência das coisas; este que só se revela quando, através de uma identidade entre o presente e o passado, ele vem a se encontrar no meio atemporal, o único em que pode subsistir.
Mas nessa atemporalidade, Proust inclui a dimensão física dessa experiência, o que lhe vem pelos sentidos do corpo, as sensações que lhe transmitem a  eternidade do que viveu. Físicas e particulares, quando elas, que foram vividas no passado, irrompem no presente, criam momentos eternos. Como quando cheiramos um perfume, depois de muitos anos em que foi esquecido, e assim nos traz de volta aquele tempo passado em que era parte do nosso habito, com uma intensidade maior do que a do que é simplesmente presente.
Estando assim, numa fração de segundos, nem lá, nem cá, ou, por outra, lá, e cá, (no passado e no presente), sentimos o prazer que resulta da identificação entre o que ja foi e o que ainda é, quer dizer, a libertação da própria cronologia do tempo,  que se revela como uma familiaridade immemorial do reencontro com a eternidade. Por isso Proust diz que o verdadeiro paraíso é o paraíso perdido.
Este reencontro não pode ser alcançado pelo pensamento puro, ou pela memória voluntária, ja que tem origem numa sensação física causada pelo inesperado encontro com um objeto material no nosso caminho. Assim Proust dá prioridade `a concretude da dimensão física no alcance da essência, ou elemento atemporal: na dimensão espiritual.
O instante transcendente em que o passado ressuscita, sendo vivenciado no presente, é também a ressurreição da fisicalidade desse passado. Mantendo o elemento temporal na própria atemporalidade, ele diz: “ Tantas vezes na minha vida, a realidade me decepcionou porque, no momento em que a percebi, minha imaginação, o único órgão que goza a beleza, não podia se aplicar a ela, devido à lei inevitável que só nos permite imaginar aquilo que nao esta presente. Mas eis que de repente, o efeito dessa dura lei fica neutralizado, suspenso, por um maravilhoso expediente da natureza, que espelhou a mesma sensação no passado, o que permitiu minha imaginação apreciá-la, e no presente, quando a afetação dos meus sentidos pelo objeto que causou essa sensação, adicionou, ao devaneio da imaginação, aquilo que geralmente não se encontra nele: a idéia de existência, permitindo, graças a esse subterfúgio, que meu ser obtivesse, isolasse, imobilizasse, o que ele nunca percebe: uma parcela de tempo em estado puro.
O ser que renasceu em Proust quando, com tal tremor de felicidade, ele experimentou sensaçōes passadas sendo também vividas no presente, só se nutre da essência das coisas, e só nelas  encontra a sua subsistência.
“Que um barulho que já foi ouvido, um odor outrora respirado, sejam novamente vivenciados no passado e no presente de uma só vez, tornando-se reais sem serem atuais, ideais sem serem abstratos, a essência permanente e, habitualmente escondida das coisas, é liberada, e nosso verdadeiro eu acorda, se anima, ao receber o alimento celeste que lhe é trazido. Um instante tirado da ordem do tempo recriou, para senti-lo, o ser tirado da ordem do tempo.”
Esse ser atemporal que prova o alimento celeste a ele trazido, se encontra, por um instante, no meio em que suas sensaçōes físicas se tornam reais sem serem atuais, ideais sem serem abstratas: no paraíso.
Em outras palavras, essas sensacōes físicas são concretas, e sem se localizarem no presente cronológico, são também ideais.  Tal realidade física e portanto material, mas que não pertence `a ordem do tempo, é a ressurreição do elemento físico, e o instante liberado da cronologia do tempo (que Proust chamou de tempo em estado puro) concerne a existência concreta porém transcendente: a  ressurreição da fisicalidade, da particularidade, ou da carne.
O narrador atemporal de Proust, aquele que só vive da essência das coisas, (o nosso verdadeiro eu) é aquele que através da ressurreição das suas próprias sensações, tem a experiência de um flash do paraíso: ele é a alma de cada um de nós.

Saturday, November 16, 2019

Quem é Você?

Quem  é voce, que com sangue mostrou
O que fingimos sentir,
Para só precisar obedecer?
O que pensamos reverenciar,
se distanciando através das palavras?
Quem é voce, que ousou se deixar matar,
Liberando o todo de dentro de voce,
Amando para morrer,
Sofrendo para renascer?
Quem é voce, que honrando a terra,
Conheceu o céu,
E que sem nada ganhar
Tudo conquistou,
Que foi você mesmo,
Para em Deus poder ser?
Quem é  voce,  constante revelação
Que tanto pensamos honrar,
Transformando em repetição?
Voce, que na mão dos homens,
A nenhum pertence,
Que é  perdão na agonia;
Vitória do Amor sobre a dor?
Plenitude no Mistério,
Quem é voce, que disponível a todos
É infinita ascensão,
E que na  cegueira de nosso pensamento,
Mora em nosso coração?
Quem  é voce, que não elevou a mente sobre a matéria,
A sobrevivência sobre a sentença,
E sim o coração sobre a carne;
A Alma acima do medo?
Quem é voce, que no grande enxergou o pequeno,
No pequeno percebeu o grande,
Voce, que lembramos por dever,
Buscamos sem nenhuma dor,
E amamos sem verdadeiro amor?

Thursday, November 14, 2019

Rob Finn; lembrança de Liberdade

Outro dia, meu filho Chris, que estava de visita e preparando um jantar com os vários amigos que vêm sempre visitá-lo, me chama la da cozinha, ” Tem uma surpresa aqui pra voce!” Desci correndo, e dentre os jovens animados Rob Finn se destacou e nos abraçamos,  na alegria de um reencontro que dispensava palavras.  Reconheci facilmente, naquele cara alto, de olhos grandes e escuros, o menino que há mais de quinze anos fora o melhor amigo de Chris, quando morávamos na cidade mais careta do país.
Rob foi especial pra mim naquela época. Lembro-me a primeira vez em que fui buscá-lo em sua casa, para  passar a tarde brincando com Chris. Os dois, que não tinham mais de onze anos, ainda usavam calça curta, e quando Chris me apresentou o amigo, enquanto eu manobrava o carro em sua rua, olhei pra trás, onde estavam sentados lado a lado, e no rosto sorridente que vi, notei logo os dentinhos caninos se sobressaindo sobre os outros, “Voce tem dentes de vampiro…que fofo, nice to meet you!”, falei, acariciando os seus joelhinhos de leve, `a guisa de uma saudação. Rob, com o mesmo sorriso, respondeu descontraído, “Nice to meet you!”.
Notei, entretanto, uma expressão meio zangada no rosto de Chris.
De fato, na segunda vez em que fomos buscar Rob, Chris me disse, “ Mãe, não fica “tocando” no meu amigo…ele vai pensar que vc quer fazer sexo com ele”. Entre a surpresa e vontade de rir, achei Chris tão exagerado que dei também um tom exagerado `a minha resposta, “ Voce acha possível que uma criança da idade dele possa pensar que a mãe do amigo quer sexo com ele? Pera lá…”
Chris não falou nada, e eu continuei a ser carinhosa com Robert, como era no Brasil com as crianças de quem gostava.   Chris se lembrava disso, e resolveu relaxar. Rob era o único que parecia totalmente `a vontade com adultos, e eu achava super fofo ouvir a sua vozinha fina, cada vez que me encontrava, “Hi Mrs Dodds!”
Ele era ótimo em qualquer esporte, e junto com Chris e outros amigos viviam entrando em campeonatos de snowboard, através do país.
Um dia, quando fui buscar Pat, um dos outros, convidaram-me a entrar. Pat ainda não estava pronto, e enquanto eu falava com sua mãe, alguns dos seus irmãos se aproximaram. Durante aquela troca de assuntos vazios entre ela e eu, um pequeno anjo aparece de repente, e, bem baixinho, fica ali parado, observando-nos com olhos azuis enormes e cintilantes, no rosto rosado cheio de sardas, sob cabelos tão louros que prateados. Antes que sua mãe me dissesse quem era, não resisti afagar aquela cabecinha que parecia um raio de luz, “ Este é John, o mais moço, tem cinco anos…” ela falou, enquanto o menino enrubescido fez uma expressão furiosa e se esquivou, “ It is all right, John, behave…” a mãe lhe disse entre risos histéricos, como se compreendesse a sua reação, e lhe pedisse para ter paciência com a estrangeira que fôra "indecente" com ele.
A ficha caiu. Lembrei que minha filha, quando tinha sete anos, chegou do colégio uma vez e me disse toda orgulhosa, “Mãe, hoje eu aprendi que cada um de nós tem uma bolha invisível `a sua volta, e a gente não pode pisar dentro dela e chegar muito perto da pessoa. É a bolha da privacidade, que a gente tem que respeitar!
O que???
Pensei que ela estava brincando, pois no Brasil e nas culturas Latinas que conheço, não se traça limites imaginários nem `a volta de quem tem doença contagiosa. Lembrei-me da fúria do irmão de Pat….. “Que gente esquisita…”, pensei, “Será que tem medo fóbico de germes, ou será que veem sexo em qualquer contacto físico?”
A lembrança de uma das lavagens mentais do Admirável Mundo Novo me deu a resposta: “ Esterilização é Civilização”.
Evitar germes também significa evitar contacto físico, e contacto físico, quando tão discriminado, evoca sexo e passa a ser duplamente indecente. O jeito era mesmo eu aprender a “me comportar”. Com Rob, entretanto, nunca houve problema. Devo dizer que ele era o único a oferecer ajuda para arrumar a bagunça que faziam em nossa casa, quando brincavam. Quando decidi aprender Snowboard, ja com quarenta anos, e ia praticar na única montanha perto da cidade, morria de vergonha de envergonhar meu filho, pois além de ser muito mais velha do que a garotada, era também bastante pior. Procurava ser discreta, e nem chegar perto das pistas íngremes que eles escolhiam. Uma vez, entretanto, não houve jeito de evitar encontra-los na fila do “ski lift”. Cada um olhou para uma direção diferente, mas Rob, ao contrário, me encarou e disse, em plena nevasca, “ Hi Mrs. Dodds!”
Que educação impecável! Como podia ele agir tão diferente dos outros? Seria porque seus pais ja tinha se divorciado e estavam cada um no segundo casamento, como eu e Steve, e isso dava a Rob uma mente mais aberta? Seria também o fato do pai ser dono de um bar boêmio, aliás o único da cidade, que os impedia ser caretas? Ou simplesmente essa liberdade resultava do próprio temperamento de Rob?
Impossível dizer. So sei que além da maneira com que me tratava, o menino tinha personalidade e auto-confiança. E só mesmo a auto-confiança permite a alguém ser desarmado e aceitar carinho, sem precisar interpreta-lo.
Os Estados Unidos é um pais que orgulhosamente se considera exemplo de liberdade. Mas a cultura Americana se apoia em regras pra tudo, mesmo que não explicitamente verbalizadas. Regras sociais, regras de como andar na rua no lado certo, regras de manter distancia, regras de não olhar no rosto de quem não se conhece, regras de não beber álcool na rua, nem que seja simplesmente na calçada do bar em que se entrou. E as importantes regras de respeitar a “bolha invisível”!
Não deixo de gostar daqui, mas para mim, liberdade é ser desarmado. Liberdade é poder receber carinho, sem ver nele perversão. Liberdade é não ter que imaginar germes no azul do ar.
Liberdade é poder ver charme nos caninos de um menino, sem fazer ele ficar se torcendo de vergonha.
Aliás, dessa vez em que reencontrei Rob, fiz todo mundo rir, inclusive ele próprio, quando lhe perguntei, “ E os teus dentes de vampiro?”

Tuesday, November 12, 2019

Benki

Sempre vou lembrar quando o vi a primeira vez. Foi ele que inspirou a a musica Txai, de Milton Nascimento.
Eu e Edgar, meu irmão, o esperávamos no aeroporto, e o longo atrazo de seu avião me deu tempo pra relembrar seu rosto, cuja expressão, nas fotos que eu ja tinha visto dele, revelava intensa vida interior. Naturalmente, viria vestido como um de nós; era preciso abstrair seus traços da pintura indígena que os adornava nas fotografias que vi, e seu seu cabelo e a forma de sua cabeça, do chapéu Ashaninka com que ele aparecia nessas fotografias. E isso, sem deixar de observar o irritante abre e fecha do portão automático de uma das salas de chegadas aéreas do Santos Dumont, para poder reconhece-lo logo que aparecesse.
O abre e fecha se repetia frenético, mas as pessoas que saiam não tinham nada a ver com Benki. Me aproximando do portão , comecei a tentar localiza-lo do outro lado, durante os segundos em que as portas se abriam para cuspir alguém pra fora daquele espaço ansioso, onde passageiros, ainda despojados de sua bagagem, como que roubados de sua identidade, podiam ser vistos desamparados e anônimos `a beira de uma esteira, esperando seus pertences. Mas nem sombra de alguém que pudesse ser Benki.
Edgar decidiu ir vigiar a outra saída de passageiros, quase que na extremidade oposta do aeroporto, mas dali a alguns momentos, através de uma das brechas entre um homem gordo e a borda das portas que o expeliam, avistei la dentro um rapaz de camiseta e jeans, vestido como um de nós, mas inteiramente diferente de todos. Mais do que esbelto e alto, ele me apareceu etéreo, seu corpo parecendo responder a uma outra dimensão. Pensei nas imagens dos alienígenas no filme Close Encounters of the Third Kind, quando, saindo da nave, pareciam prestes a se desvanecer no ar. A delicadeza de Benki é a sua força.
Ao invés de grudado `a esteira de bagagens, como os outros viajantes, Benki a observava à distancia, como se contasse com todo o tempo do mundo. Mais tarde, ja na casa de Edgar, vi que mesmo na urgência  com que vive, ele tem todo o tempo do mundo, cumprindo uma missao que ja era dele antes que nascesse. "Vim para ajudar", ele diz, quando explica ser a re incarnaçao de um shaman de seu povo.
Nos momentos em que pudemos te-lo conosco e nossos amigos próximos, entre os milhares de chamados de toda parte, por todo tipo de pessoas que o seguem, fiquei fascinada. Benki é pajé e líder dos índios Ashaninka que moram na fronteira do Brasil com o Peru.
Esteve com cada um de nos em particular, e disse logo qual era o principal problema de cada um. Nos cuidou individualmente, soprando fumaça de seu cachimbo em nossa cabeça, aspirando as energias ruins do nosso peito e as cuspindo pela janela,  enquanto entoava rezas em sua língua. Mas alem de qualquer pajelança, ou do que Benki nos contou de si mesmo, o que mais me impressionou foi a sua presença. Ver para crer, ou talvez, crer para poder ver. Fica a critério de cada um.
Benki é multiforme. Parece  uma criança, ao mesmo tempo que um homem moço, e um ser de tempos imemoriais. Em sua graça, naturalmente nobre, evoca anjo e principe ao mesmo tempo. Diz-se que ele não so abre caminhos para as pessoas, mas muitas vezes as cura na origem de sua doença, que é sempre ignorada pelos medicos que so querem aliviar as consequências. Benki é tambem conhecido pela sua causa de salvar a floresta, ja tendo levado sua mensagem a vários países em encontros com lideres de diferentes nacionalidades, e mobilizado muita gente que a princípio era indiferente a essa causa. No reflorestamento que faz com o grupo de rapazes que lidera, ja plantou dois milhōes de árvores.
Alternando a realidade de fatos com a verdade de sua herança mítica, tudo que Benki diz é intenso. Ao mesmo tempo em que ele é integralmente presente, é arrebatado. Benki é paz e paixão. Humilde e consciente de seu valor. Transmite o foco da coragem incondicional, como se seu ser fosse uma oferta. Ja passou por varias ameaças de vida por parte de traficantes e madeireiros, e segue sem medo. Me fez pensar na entrega de Jesus ao Pai.
Coragem é o infinito da presença: Sincronia com o destino.