Monday, November 18, 2019

A Iminência da Vida

Um dia, sonhei com uma estrela boiando no azul aguado do anoitecer. Única, aquela deslumbrante esfera de luz transformava toda a extensão celeste que a rodeava em sua exclusiva moldura. Primeira a marcar o céu, ela era conclusão do nascimento; puro mistério entre fim e começo. Sob um sentimento de respeito quase petrificante, refugiei-me no mundo do conhecido e pensei que aquele corpo celeste era a estrela Dalva. Venus, eu conheço voce, sei o teu nome, não tenho medo. Sem piscar, a luz radiante do círculo prateado, em ininterrupta continuidade, era definitiva.
Venus… estrela Dalva, só pode ser. Mesmo que o seu brilho milagroso e único nesse céu me assuste, voce é familiar; não vai me levar para dimensões desconhecidas, ou me trazer pensamentos estranhos, imaginei.
Mas a estrela começou a crescer, até atingir o tamanho de uma bola de bilhar, e ficou azulada, como a terra vista pelos astronautas  a grande distancia. Hipnotizada por minha própria admiração , consegui pouco a pouco discernir rios, florestas, continentes e mares nomeados individualmente na superfície deserta daquele corpo celeste, como se Deus lhes houvesse batizado antes de se tornarem solo para a civilização. Um novo planeta era anunciado, pronto a ser povoado. Pessoas poderiam pisar naquele corpo celeste, e começar um mundo novo.
A disponibilidade daquele ser perfeito do céu me confrontava com a iminência da vida, e me causava uma indescritível vontade de chorar. Aquela esfera perfeita e azulada, imaculada e nova flutuando no azul trazia a tristeza de ser só, e a alegria de ser única.
“Estrelinha, por que voce quer abandonar a sua completude? Pra que voce quer virar solo a ser cultivado e terra a ser trabalhada, ao invés de continuar sendo uma joia intocável? Por que tornar a sua pureza acessível, abandonando a majestade que vc tem no céu?
Minha estrela, ainda sem mácula, estava pronta para virar chão. A iminência da vida , no medo do mistério e na alegria do milagre, é reverencia diante da inocência, e do imprevisto. Abandono da perfeição pela posse de um destino, promessa de integridade no sofrimento da separação, ela é a ambivalência da liberdade.
Aquela esfera sagrada estava pronta para repartir o seu ser: a iminência da vida é a concepção de um bebê.
Estrelas nascem, iluminam, tornam-se unidades isoladas em toda sua plenitude, ao mesmo tempo que  generosidade no brilho que compartilham. Não vem também disso, a beleza de um céu estrelado? Da novidade sem fim de cada estrela, ao mesmo tempo que a ligação de todas no infinito que lhes fez nascer?
A iminência da vida. Tremenda fé da criatura, enorme generosidade do criador. Na entrega de ambos, um se separa do outro, fazendo, da distancia que os distingue, promessa de comunhão.
A iminência da vida é o gesto de desapego e grandeza da mão de Deus pintada por Michelangelo ao criar o homem na separação de Si; na permissão de um adeus que se transforma num encontro de dois seres; O mesmo gesto que trazemos no fundo do coração, do momento em que aceitamos ser a estrela do meu sonho, a oferta de solidez para nossos semelhantes, a semente no ventre de nossa mãe. Um novo brilho no céu.

Proust e a Ressurreição da Carne

Proust é considerado agnóstico, por não declarar, com todas as letras, ter fé em Deus. Mauriac chega a dizer que Deus está ausente da Recherche. A palavra 'Deus' pode estar, nao a presença divina. E a palavra, na verdade, enquanto conceito, é ausencia. Nao mostrou Hegel que o absolutamente presente é indizivel?
Proust diz que um livro com teorias é como um objeto com a marca do seu preço, (nao o objeto em si.) O objeto apontando para uma avaliacao numérica de si, no lugar do seu proprio valor. Como disse Oscar Wilde, o cínico sabe o preco de tudo e o valor de nada.
Ao invés de afirmar sua fé, Proust transmite a sua experiência dessa fé, de modo que o leitor a vivencie dentro de si mesmo. Ao escrever, Proust não tem fé, ele se torna fé. Ao inves de acreditar em Deus, de se apoiar numa frase de crença, ele vivencia o divino.
Em sua experiência do espírito, no “Le Temps Retrouvé” ele se descreve, enquanto que narrador da sua obra, como o homem arrancado da cronologia do tempo, o homem que só pode encontrar seu prazer e nutrição na essência das coisas; o ser que só se revela quando, através de uma identidade entre o presente e o passado, ele vem a se encontrar no meio atemporal, o único em que pode subsistir.
Mas nessa atemporalidade, Proust inclui a dimensão física de sua experiência, o que lhe vem pelos sentidos do corpo, as sensaçoes que lhe transmitem a  eternidade do que viveu. Fisicas e particulares, quando elas, que foram vividas no passado, irrompem no presente, criam momentos eternos. Como quando cheiramos um perfume, depois de muitos anos em que seu perfume é esquecido, ele nos traz de volta o tempo passado em que nos era habito, com uma intensidade maior do que a do presente.
Estando assim, numa fração de segundos, nem lá, nem cá, ou, por outra, lá, e cá, (no passado e no presente), sentimos o prazer que resulta da experiência de identificação entre o que ja foi e o que ainda é, quer dizer, o prazer da libertação da própria cronologia do tempo,  deleite de uma absoluta liberdade, e ainda assim, da familiaridade immemorial do reencontro com a eternidade. Por isso Proust diz que o verdadeiro paraíso é o paraíso perdido.
Mas o reencontro com o paraiso não pode ser alcançado pelo pensamento puro, ou pela memória voluntária, pois tem origem numa sensação física, causada pelo inesperado encontro com um objeto material no nosso caminho. Assim Proust dá prioridade `a concretude da dimensão física na própria busca da essência, ou elemento atemporal: na busca do espírito.
O instante transcendente em que o passado ressuscita, sendo vivenciado no presente, é também a ressurreição da fisicalidade desse passado. Mantendo o elemento temporal na própria atemporalidade, t diz: “ Tantas vezes na minha vida, a realidade me decepcionou porque, no momento em que a percebi, minha imaginação, o único órgão que goza a beleza, não podia se aplicar a ela, devido à lei inevitável que só nos permite imaginar aquilo que nao esta presente. Mas eis que de repente, o efeito dessa dura lei se encontra neutralizado, suspenso, por um maravilhoso expediente da natureza, que espelhou a mesma sensação no passado, o que permitiu minha imaginação apreciá-la, e no presente, quando a afetação dos meus sentidos pelo objeto que causou essa sensação, adicionou, ao devaneio da imaginação, aquilo que geralmente não se encontra nele: a idéia de existência, permitindo, graças a esse subterfúgio, que meu ser obtivesse, isolasse, imobilizasse, o que ele nunca percebe: uma parcela de tempo em estado puro.
O ser que renasceu em Proust quando, com tal tremor de felicidade, ele experimentou sensaçōes passadas tornando-se presente, só se nutre da essência das coisas, e só nelas  encontra a sua subsistência.
“Que um barulho que já foi ouvido, um odor outrora respirado, sejam novamente vivenciados no passado e no presente de uma só vez, tornando-se reais sem ser atuais, ideais sem ser abstratos, a essência permanente e habitualmente escondida das coisas é liberada, e nosso verdadeiro eu acorda, se anima, ao receber o alimento celeste que lhe é trazido. Um instante tirado da ordem do tempo recriou, em nós, para senti-lo, o ser tirado da ordem do tempo.”
Para resumir, esse ser atemporal, que prova o alimento celeste a ele trazido, se encontra, por um instante, no estado em que suas sensaçōes físicas se tornam reais sem ser atuais, ideais sem ser abstratas: no paraíso.
Em outras palavras, essas sensacōes físicas são concretas, e sem se localizarem no presente cronológico, são também ideais.  Tal realidade física e portanto material, a qual, entretanto, não pertence `a ordem do tempo, é a ressurreição do elemento físico, e o instante liberado da cronologia do tempo (que Proust chamou de tempo em estado puro) concerne a existência concreta porém transcendente: a  ressurreição da fisicalidade, da particularidade, ou da carne.
O narrador atemporal de Proust, aquele que só vive da essência das coisas, (o nosso verdadeiro eu) é aquele que através da ressurreição das suas próprias sensações, tem a experiência de um flash do paraíso: ele é a alma de cada um de nós.

Saturday, November 16, 2019

Quem é Você?

Quem  é voce, que com sangue mostrou
O que fingimos sentir,
Para só precisar obedecer?
O que pensamos reverenciar,
E nas palavras só se distanciar?
Quem é voce, que ousou se deixar matar,
Liberando o todo de dentro de voce,
Amando para morrer,
Sofrendo para renascer?
Quem é voce, que honrando a terra
Conheceu o céu,
E que sem nada ganhar
Tudo realizou,
Que foi só você,
Para em Deus poder ser?
Quem é  voce,  constante revelação
Que pensamos adorar
Transformando em repetição?
Voce, que na mão dos homens,
A nenhum pertence,
Que é  perdão na agonia;
Vitória do Amor sobre a dor;
Plenitude no Mistério?
Quem é voce, que disponível a todos
É infinita ascensão,
E que na  cegueira de nosso pensamento,
Pode morar em nosso coração?
Quem  é voce, que não elevou a mente sobre a matéria,
A Sobrevivência sobre a sentença,
E sim o coração sobre a carne;
A Alma acima do medo?
Quem é voce que no grande viu o pequeno,
No pequeno enxergou o grande,
Voce, que lembramos por dever,
Buscamos sem nenhuma dor,
E amamos sem verdadeiro amor?

Thursday, November 14, 2019

Rob Finn; lembrança de Liberdade

Outro dia, meu filho Chris, que estava de visita e preparando um jantar com os vários amigos que vêm sempre visitá-lo, me chama la da cozinha, ” Tem uma surpresa aqui pra voce!” Desci correndo, e dentre os jovens animados Rob Finn se destacou e nos abraçamos,  na alegria de um reencontro que dispensava palavras.  Reconheci facilmente, naquele cara alto, de olhos grandes e escuros, o menino que há mais de quinze anos fora o melhor amigo de Chris, quando morávamos na cidade mais careta do país.
Rob foi especial pra mim naquela época. Lembro-me a primeira vez em que fui buscá-lo em sua casa, para  passar a tarde brincando com Chris. Os dois, que não tinham mais de onze anos, ainda usavam calça curta, e quando Chris me apresentou o amigo, enquanto eu manobrava o carro em sua rua, olhei pra trás, onde estavam sentados lado a lado, e no rosto sorridente que vi, notei logo os dentinhos caninos se sobressaindo sobre os outros, “Voce tem dentes de vampiro…que fofo, nice to meet you!”, falei, acariciando os seus joelhinhos de leve, `a guisa de uma saudação. Rob, com o mesmo sorriso, respondeu descontraído, “Nice to meet you!”.
Notei, entretanto, uma expressão meio zangada no rosto de Chris.
De fato, na segunda vez em que fomos buscar Rob, Chris me disse, “ Mãe, não fica “tocando” no meu amigo…ele vai pensar que vc quer fazer sexo com ele”. Entre a surpresa e vontade de rir, achei Chris tão exagerado que dei também um tom exagerado `a minha resposta, “ Voce acha possível que uma criança da idade dele possa pensar que a mãe do amigo quer sexo com ele? Pera lá…”
Chris não falou nada, e eu continuei a ser carinhosa com Robert, como era no Brasil com as crianças de quem gostava.   Chris se lembrava disso, e resolveu relaxar. Rob era o único que parecia totalmente `a vontade com adultos, e eu achava super fofo ouvir a sua vozinha fina, cada vez que me encontrava, “Hi Mrs Dodds!”
Ele era ótimo em qualquer esporte, e junto com Chris e outros amigos viviam entrando em campeonatos de snowboard, através do país.
Um dia, quando fui buscar Pat, um dos outros, convidaram-me a entrar. Pat ainda não estava pronto, e enquanto eu falava com sua mãe, alguns dos seus irmãos se aproximaram. Durante aquela troca de assuntos vazios entre ela e eu, um pequeno anjo aparece de repente, e, bem baixinho, fica ali parado, observando-nos com olhos azuis enormes e cintilantes, no rosto rosado cheio de sardas, sob cabelos tão louros que prateados. Antes que sua mãe me dissesse quem era, não resisti afagar aquela cabecinha que parecia um raio de luz, “ Este é John, o mais moço, tem cinco anos…” ela falou, enquanto o menino enrubescido fez uma expressão furiosa e se esquivou, “ It is all right, John, behave…” a mãe lhe disse entre risos histéricos, como se compreendesse a sua reação, e lhe pedisse para ter paciência com a estrangeira que fôra "indecente" com ele.
A ficha caiu. Lembrei que minha filha, quando tinha sete anos, chegou do colégio uma vez e me disse toda orgulhosa, “Mãe, hoje eu aprendi que cada um de nós tem uma bolha invisível `a sua volta, e a gente não pode pisar dentro dela e chegar muito perto da pessoa. É a bolha da privacidade, que a gente tem que respeitar!
O que???
Pensei que ela estava brincando, pois no Brasil e nas culturas Latinas que conheço, não se traça limites imaginários nem `a volta de quem tem doença contagiosa. Lembrei-me da fúria do irmão de Pat….. “Que gente esquisita…”, pensei, “Será que tem medo fóbico de germes, ou será que veem sexo em qualquer contacto físico?”
A lembrança de uma das lavagens mentais do Admirável Mundo Novo me deu a resposta: “ Esterilização é Civilização”.
Evitar germes também significa evitar contacto físico, e contacto físico, quando tão discriminado, evoca sexo e passa a ser duplamente indecente. O jeito era mesmo eu aprender a “me comportar”. Com Rob, entretanto, nunca houve problema. Devo dizer que ele era o único a oferecer ajuda para arrumar a bagunça que faziam em nossa casa, quando brincavam. Quando decidi aprender Snowboard, ja com quarenta anos, e ia praticar na única montanha perto da cidade, morria de vergonha de envergonhar meu filho, pois além de ser muito mais velha do que a garotada, era também bastante pior. Procurava ser discreta, e nem chegar perto das pistas íngremes que eles escolhiam. Uma vez, entretanto, não houve jeito de evitar encontra-los na fila do “ski lift”. Cada um olhou para uma direção diferente, mas Rob, ao contrário, me encarou e disse, em plena nevasca, “ Hi Mrs. Dodds!”
Que educação impecável! Como podia ele agir tão diferente dos outros? Seria porque seus pais ja tinha se divorciado e estavam cada um no segundo casamento, como eu e Steve, e isso dava a Rob uma mente mais aberta? Seria também o fato do pai ser dono de um bar boêmio, aliás o único da cidade, que os impedia ser caretas? Ou simplesmente essa liberdade resultava do próprio temperamento de Rob?
Impossível dizer. So sei que além da maneira com que me tratava, o menino tinha personalidade e auto-confiança. E só mesmo a auto-confiança permite a alguém ser desarmado e aceitar carinho, sem precisar interpreta-lo.
Os Estados Unidos é um pais que orgulhosamente se considera exemplo de liberdade. Mas a cultura Americana se apoia em regras pra tudo, mesmo que não explicitamente verbalizadas. Regras sociais, regras de como andar na rua no lado certo, regras de manter distancia, regras de não olhar no rosto de quem não se conhece, regras de não beber álcool na rua, nem que seja simplesmente na calçada do bar em que se entrou. E as importantes regras de respeitar a “bolha invisível”!
Não deixo de gostar daqui, mas para mim, liberdade é ser desarmado. Liberdade é poder receber carinho, sem ver nele perversão. Liberdade é não ter que imaginar germes no azul do ar.
Liberdade é poder ver charme nos caninos de um menino, sem fazer ele ficar se torcendo de vergonha.
Aliás, dessa vez em que reencontrei Rob, fiz todo mundo rir, inclusive ele próprio, quando lhe perguntei, “ E os teus dentes de vampiro?”

Tuesday, November 12, 2019

Benki

Sempre vou lembrar quando o vi a primeira vez. Sim, ele é quem inspirou a linda musica Txai, de Milton Nascimento.
Eu e Edgar, meu irmão, o esperávamos no aeroporto, e o longo atrazo de seu avião me deu tempo pra relembrar seu rosto, cuja expressão, nas fotos que eu ja tinha visto dele, revelava intensa vida interior. Naturalmente, viria vestido como um de nós; era preciso abstrair seus traços da pintura indígena que os adornava nas fotografias que vi- assim como seu cabelo e a forma de sua cabeça, do chapéu Ashaninka com que aparecia nelas- sem deixar de observar o irritante abre e fecha do portão automático de uma das salas de chegadas aéreas do Santos Dumont, para poder reconhece-lo tão logo aparecesse.
O abre e fecha se repetia frenético, mas as pessoas que saiam não tinham nada a ver com Benki. Me aproximando da saída , comecei a tentar localiza-lo do outro lado, durante os segundos em que as portas se abriam para cuspir alguém pra fora daquele espaço ansioso, onde passageiros, ainda despojados de sua bagagem, como que roubados de sua identidade, podiam ser vistos desamparados e anônimos `a beira de uma esteira, na espera de seus pertences. Mas nem sombra de alguém que pudesse ser Benki.
Edgar decidiu ir vigiar a outra saída de passageiros, quase que na extremidade oposta do aeroporto, mas dali a alguns momentos, através de uma das brechas entre um homem gordo e a borda das portas que o expeliam, avistei la dentro um rapaz de camiseta e jeans, vestido como “um de nós”, mas inteiramente diferente de todos. Mais do que esbelto e alto, ele me apareceu etéreo, seu corpo parecendo responder a uma outra dimensão, trazendo-me `a mente as primeiras imagens dos alienígenas no filme Close Encounters of the Third Kind, quando estes, fora da nave, são silhuetas que se aproximam, ao mesmo tempo que parecem prestes a se desvanecer no ar. A delicadeza de Benki é a sua força.
Ao invés de grudado `a esteira de bagagens, como os outros viajantes, Benki a observava de uma certa distancia, como se um pouco perdido, ou melhor, como se tivesse todo o tempo do mundo. Mais tarde, ja na casa de Edgar, constatei que, mesmo na urgência  com que vive, Benki tem todo o tempo do mundo, pois que responde a uma causa que o transcende. Nos momentos em que pudemos te-lo conosco e nossos amigos próximos, entre os milhares de chamados de toda parte, por todo tipo de pessoas que o seguem, fiquei realmente admirada. Benki é pajé e líder dos índios Ashaninka que moram na fronteira do Brasil com o Peru.
Esteve com cada um de nos em particular, e, clarividente, disse, de imediato qual era o principal problema de cada um, rezou-nos individualmente, soprando fumaça de seu cachimbo em nossa cabeça, aspirando de nosso peito as energias ruins que cuspia pela janela,  enquanto entoava rezas em sua língua.
Não é bastante relatar o alivio diferente que senti de sua pajelança. Isso poderia fazer pensar em auto-sugestão, assim como acontece com os cobaias que tomam placebos e alcançam resultados positivos do que seria, supostamente, remédios novos . Basta dizer que, alem de qualquer pajelança, ou do que Benki nos contou de si mesmo, o que na verdade mais me impressionou foi a sua presença. Ver para crer, ou talvez, crer para poder ver. Fica a critério de cada um.
Benki é multiforme. Parece  uma criança, ao mesmo tempo que um homem moço, e um ser vindo de tempos imemoriais. Em sua graça, naturalmente nobre, evoca anjo e principe ao mesmo tempo. Benki é famoso não so por abrir caminhos para as pessoas, ver dentro delas, muitas vezes curando-as na origem, que os médicos sempre ignoram, das doenças que apresentam, mas pela sublime causa de salvar a floresta e o meio ambiente, ja tendo levado sua mensagem a vários países em encontros com lideres de diferentes nacionalidades, e mobilizado muita gente, que a princípio era indiferente a essa causa. No reflorestamento que faz com o grupo de rapazes que lidera, ja plantou dois milhōes de árvores. Diz ser a re- incarnação de seu avô, que lhe deu a causa de salvar seu povo, sua cultura tradicional, e o respeito pela bio diversidade.
Alternando a realidade de fatos com a verdade de sua herança mítica, tudo que Benki diz é fascinante, mas o que torna impossível não acreditar nele é a intensidade de seu ser. Em todos os momentos em que estive `a sua volta, pude senti-lo integralmente presente, ao mesmo tempo que arrebatado. Unindo esses dois extremos, Benki é humilde, ao mesmo tempo que consciente do seu valor. Transmite o foco inabalável da coragem incondicional, como se seu ser fosse uma oferta, por assim dizer, ou estivesse constantemente `a beira do sacrifício. Ja passou por varias ameaças de vida por parte de traficantes e madeireiros, e segue sem medo. Me fez pensar na entrega de Jesus ao Pai. Lembrei também da paixão, como constante dor e renascer. Na sua calma firme, Benki é apaixonado.
A fé que Benki transmite vem da comunicação direta com a sua alma, sendo ele despojado de todas as camadas de defesa atrás das quais nos escondemos. Sua coragem é a nudez da integridade, a liberdade de não se guardar contra nada no futuro, e não se agarrar a nada do passado.
Coragem é o infinito da presença: Sincronia com o destino.

Ayahuasca, a Reconciliação


Disse Oscar Wilde que “Patriotism is the virtue of the vicious”. Gosto de lembrar isso porque considero cada indivíduo um cidadão da humanidade. Nesse ponto de vista individualista, é como se rótulos, e tudo que não seja o ser inato, não tenha importância. Ser francês e falar francês, por exemplo, são rótulos que podem ser trocados, se a pessoa quiser mudar para o Canadá, para virar “canadense” e falar inglês, e por aí afora. Por isso, disse Sartre, que o homem é constante poder de se auto criar.
Mas alem dessa indiferença a limites geográficos e culturais, eu ressentia o Brasil na maioria das lembranças do que vivi la, como a adolescência alcoólatra, a anorexia quase fatal, a neurose doméstica, enfim, tudo que começou com a juventude. Esse ressentimento obviamente me ajudou a vir morar aqui e continuar a viver como árvore transplantada. Mesmo assim,  lembrava meu lugar de origem com um espinho no coração, entre saudade e revolta. Até que pouco a pouco, em instantes de plenitude, Ayahuasca resgatou, pra mim, o tempo da relação primordial que se tem com o mundo antes da palavra; da “tradução” de outrem; do conhecimento do dever, e de toda essa mediação que enfraquece, distancia e finalmente quebra a comunhão original que temos com o que nos rodeia, na pureza da sensação e no imediatismo do sentimento, antes do imperdoável surgir da  racionalidade.
Ayahuasca retornou o tempo em que eu e o que me rodeava vivíamos num mesmo ser, como a praia de Copacabana na época em que, diante dela, tive minha primeira morada neste mundo, quando   o mar, em frente a nosso apartamento, estava também dentro de nós. Numa cozinha que era imensa pra mim, eu tinha meu lugar a uma pequena mesa, junto a meu irmão, na sua cadeirinha de bebê. Tudo era muito alto, numa constante mutação de branco, para azul, para a cor do vento, porque o vento soprou o mar pra nós, inundando tudo com o seu sussurro que se misturava `a musica das ondas e ao o azul omnipresente do oceano. Texturas se interpenetravam, num movimento de cores que era ar marinho e elemento liquido ao mesmo tempo, frescura que vinha pra cozinha e pro nosso coração… Objetos e emoções, além de superfícies fixas e rótulos de palavras, criavam a mesma intensidade alegre que anulava os limites de cada coisa, transformando tudo na manifestação de algo maior.
A cozinha era o mar dentro da cozinha, o mar la fora era nossa cozinha misturando-se nele, a brisa do mar era respiração do corpo e do céu, o azul das ondas e o branco da parede eram diálogos entre o fora e o dentro, o dentro e o fora. Nosso lanche estava em cima da mesa, e a voz grossa do mar nos dizia pra comer através da nossa mãe, que virava o rosto em outra direção pra poder fingir ser ele, voltando então a nos encarar e dizer, na sua própria voz, que o mar queria que ficássemos fortes, devíamos comer, o mar mandou…
Saber que era mamãe falando como o mar não me impedia acreditar que era o mar que falava com a gente. Tudo podia ser tudo, na unidade que as criancinhas sentem em  sua ignorância da rigidez dos conceitos e limites verbais. Cada vez que mamãe repetia o pedido do mar, era ele que eu ouvia, e era ela que eu amava por se tornar ele. Esse entrelaçar de cores, seres, brisa e voz, na cozinha do meu primeiro lar, retornava a unicidade daquele momento na experiência de uma essência comum do som,  tato,  vista, fora e dentro, mãe e mar, coração e vida.
Naquelas manhãs douradas, mamãe nos levava `a praia, nos banhava no mar, Edgar pequenino gritando e esperneando, e nos levava de volta `a nossa toalha naquela areia infinita, para voltar e mergulhar sozinha. Afastava-se, na direção de uma onda maior que tudo, e que distante parecia tão perto, no seu verde que não parava de crescer, espelhando o sol como  estrela liquida e viva, atraindo e assustando, esticando e encolhendo com o pique e curva da massa fluida no seio da qual brilhava essa estrela, coração pulsante e aniquilador; divindade pronta `a explodir e abençoar.
Determinada, mamãe se aproximava do luminoso e imperativo coração de sal e luz, ficando mais e mais longe de nos, tão pequeninos na toalha rectangular, cuja precariedade, sob o comando materno de que sobre ela esperássemos , se transformava, como uma bandeira, na afirmação de nosso território, sob o sol quente de Copacabana. O mar, o céu, a areia, a onda e seu coração, os passos de mamãe na sua direção… Tudo era imenso. Não em tamanho, algo relativo, que não podia fazer parte de um universo em que as coisas só são vistas com o coração, mas em significado. Aquela imensidão era o calor gostoso sobre minha pele arrepiada, os pingos de agua salgada escorrendo do meu rosto e desaparecendo na toalha em que meu irmão ainda bebe estava deitado, em submissão e maravilhamento, tão redondo e macio perto de mim…
Nós dois, um amontoado quase amorfo de curvas e formas molhadas no tecido quente que, naquele gigantesco espaço, continuava a ser nossa ancora na autoridade de nossa mãe; na entrega da inocência. A onda podia engolir ou retorna-la pra nós, mas ainda assim nossa confiança tudo abrangia. Água salgada tinha gosto de ameaça e beleza em minha boca. Aquele momento reproduziu-se em outra onda, invisível porém gigante, de alivio e felicidade.
Ayahuasca permitiu que minhas raizes se revelassem dentro de mim, na imensidão de praias atemporais de um mar sem fim, reconciliando-me, paradoxalmente  com o solo mais orgânico e particular de onde nasci. Embora sem patriotismo, senti orgulho de vir de um chão nacionalmente comum com a floresta do chá, e com as culturas nativas que o descobriram.   E também, do Brazil ainda ter índios, e dessa floresta conter cerca de 50% da biodiversidade mundial, tendo sido mostrado, em pesquisas recentes, que ela retira mais gás carbônico da atmosfera do que emite.
Contrastando com todos os escândalos de corrupção nacional, o país é literalmente fonte da maior pureza no ar e no verde da sua floresta, e metaforicamente, na sabedoria shamanica dos índios. Ayahuasca é reconciliação na esfera da vida pessoal, universal e cósmica, trazendo a consciência da conexão de cada um com a criação. A rede que tudo liga e irmana, muitas vezes aparece como sentido prateado e transparente entre todos os coraçōes.
Enquanto reconciliação, Ayahuasca é Perdão.
Pensei que um dia esse Perdão se ramificaria através do mundo, remendando a cisão feia e pretensiosa entre os homens e o planeta; a divisão que dá, aos primeiros, a posição de exploradores, transformando o segundo em campo de depredação. Mas, enquanto nossos índios corajosamente levam a mensagem do sacramento da floresta a outros países, na paciência infinitamente humilde de mostrar a luz aos civilizados, quer dizer, ensinar aqueles que se consideram seus superiores, ha quem os mate por interesse material, em seu próprio território.
Com muita tristeza e revolta, venho vendo, mais e mais frequentes, noticias da “vista grossa” ao genocídio de índios e desmatamento  da floresta, com a sanção do governo brasileiro. O aumento da concentração de gás carbônico, contribuindo para o efeito estufa, resulta também da substituição de áreas florestais por pastos de agropecuária e construção de barragens, dando ao Brasil quarto lugar entre os maiores emissores de gases que causam esse problema.
Parece que não contentes em ser notícia internacional através de roubos e escândalos políticos, brasileiros ainda correm para dar, em seu próprio país, o golpe de misericórdia: a destruição da própria inocência. Pois o Brasil tem, nas culturas indígenas, a inocência em estado “puro”: a vida, independente de direitos burocráticos de posse, a vida “sem lenço e sem documento”, pois que nascida da espontânea interação dos nativos com a terra e a água, ao invés da conquista e  opressão sempre presentes na origem das naçōes formadas pela civilização. Mas despreza-se, entretanto, os nativos, a sua sabedoria  shamanica imemorial, e o potencial poder de cura da própria floresta, tripudiando-se suas mais genuínas raizes, para se igualar, no pretexto de busca pelo progresso, ao lado negro da civilização; `a ganância pelo dinheiro.
Acorda, Brasil! Será que mesmo diante das calamidades ecológicas resultantes do reverenciado “progresso”, não da pra tentar rumos diferentes? Quando se poderá ver que, mesmo sem dinheiro, é mais rico o território que contem metade da biodiversidade do mundo, e a possibilidade mágica, para não dizer, transcendente, de salvação?
Pois, Ayahuasca transcende. Já ouvi céticos dizer, depois de experimentar o chá, “Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay”
O Brasil será campeão se, ao invés de participar da corrida apocalíptica construindo represas, ou de se afirmar com  futibol e  carnaval, promover e proteger a unicidade milagrosa do seu próprio solo.

Monday, November 11, 2019

Amor Cósmico: Eclipse do Sol

Acabei de ver o eclipse do sol, daqui de Boulder. Saía de casa com meu cachorro, lá pelas onze e meia da manhã, pensando que o fenômeno celeste ja tinha no mínimo acontecido, pois que se faz tamanha onda em torno de eventos cósmicos, dos quais muitas vezes quase nada, ou mesmo nada, se vê deles. Nessas ocasiōes, a indústria em geral se aproveita, fabricando todo tipo de parafernália temática, em torno do evento.
Disseram-me que o eclipse de hoje seria `as dez e meia da manhã, Mountain time , mas da cozinha, já mais tarde que dez e meia, eu via a luz do sol lá fora, fixa e constante. Sabia que nessa área não faria noite total, mas mesmo assim, se algo pudesse ser visível, alguma diferença deveria se poder notar na luminosidade do dia. Então, desincumbindo-me do interesse de "correr" atrás do eclipse, fui saindo com o cachorro porta fora, e me surpreendo quando o jardineiro logo aponta pra calçada, `a beira da qual crescem várias de nossas plantas, e me diz, "Olha o eclipse..."
Nunca pensei poder ver sinal de eclipse no chão, mas as formas em meia lua das sombras que ali vi, repetidas infinitamente, me pareceram a princípio serem projeçōes distorcidas das folhas das plantas. Quando vi a verdadeira sombra das folhas, percebi então que aquelas projeçoes que vira antes, como havia dito o jardineiro, eram sombras do próprio eclipse: as mil formas que, parecendo repetiçōes de pequenos "C"s, ou luazinhas crescentes, correspondiam na verdade `as fatias de sol cobertas pela lua. Como dissera o jardineiro, naquele chão podia ser visto o eclipse. Por mais que se explique os fenômenos supostamente naturais, a primeira vez que vejo um deles, sinto-me diante de um milagre, como a revelação que um animal desconhecido em liberdade me causa.
O que vi, no que tomei como sombra das folhas, foi o mundo da terra refletir o do céu; o solo ecoando o cosmos. As mil eclipsezinhas no meu chão eram mil céus sobre a minha cabeça!
Entrei correndo e peguei os óculos adequados para olhar o sol diretamente, enquanto levava o cachorro rua acima entre exclamaçōes de maravilhamento, e pausas desajeitadas para reajustar os óculos, apreciar, e fotografar de qualquer jeito com o iPhone.

Dizem muitas coisas sobre eclipses. Geralmente, as pessoas têm medo e ficam na defensiva, talvez pelo evento concernir uma interrupção da luz emitida pelo astro rei, tanto na que vem pra terra, como no caso da que acabo de ver, quanto na que vai pra lua, quando nosso planeta se bota entre esta e o sol. Soube de gente que nesses dias, nem quis sair de casa. Alguns falaram em reajustes e/ou quebras de relaçōes, e ainda outros em novos começos. Evito me agarrar com interpretaçōes que sirvam `a coletividade, por isso não sigo astrologia, embora não lhe seja totalmente descrente.
Quanta gente pensou que o mundo não passaria do ano dois mil, por causa do gesto do Menino Jesus de Praga? Quantos outros, traduzindo calendários da antiguidade e sabe-se lá o que mais, tiveram uma certeza tão fanática quanto obsessiva, chata e derrotista, que o ano 2012 seria fatídico?
Querer prever a qualquer custo é querer se proteger do imprevisto, do que a Deus pertence . Incapaz de suportar o que está alem de si, o ego gosta de certezas, pois que estas confirmam a própria limitação da sua natureza; a incapacidade de se abandonar. Eu tinha ouvido coisas sobre o eclipse, mas só posso acreditar no que eu própria senti do que vi, e que foi tão lindo. Olhos nos olhos do satélite e da estrela, ao apreciar a ousadia humilde da lua cobrir o sol, passando, obediente, delicada e reverente, na harmonia languida de uma carícia que, espraiando-se nas diversas camadas do azul `a volta, não deixava de ser fiel ao contorno de seus corpos celestes, agraciando de brilho a precisão tenazmente redonda do encontro de suas linhas, eu vi, muito antes de uma interrupção de luz, a privacidade da pausa de um grande ato de amor; um copular cósmico.