Monday, November 18, 2019

A Iminência da Vida

Um dia, sonhei com uma estrela boiando no azul aguado do anoitecer. Única, aquela deslumbrante esfera de luz transformava toda a extensão celeste que a rodeava em sua exclusiva moldura. Primeira a marcar o céu, ela era conclusão do nascimento; puro mistério entre fim e começo. Sob um sentimento de respeito quase petrificante, refugiei-me no mundo do conhecido e pensei que aquele corpo celeste era a estrela Dalva. Venus, eu conheço voce, sei o teu nome, não tenho medo. Sem piscar, a luz radiante do círculo prateado, em ininterrupta continuidade, era definitiva.
Venus… estrela Dalva, só pode ser. Mesmo que o seu brilho milagroso e único nesse céu me assuste, voce é familiar; não vai me levar para dimensões desconhecidas, ou me trazer pensamentos estranhos, imaginei.
Mas a estrela começou a crescer, até atingir o tamanho de uma bola de bilhar, e ficou azulada, como a terra vista pelos astronautas  a grande distancia. Hipnotizada por minha própria admiração , consegui pouco a pouco discernir rios, florestas, continentes e mares nomeados individualmente na superfície deserta daquele corpo celeste, como se Deus lhes houvesse batizado antes de se tornarem solo para a civilização. Um novo planeta era anunciado, pronto a ser povoado. Pessoas poderiam pisar naquele corpo celeste, e começar um mundo novo.
A disponibilidade daquele ser perfeito do céu me confrontava com a iminência da vida, e me causava uma indescritível vontade de chorar. Aquela esfera perfeita e azulada, imaculada e nova flutuando no azul trazia a tristeza de ser só, e a alegria de ser única.
“Estrelinha, por que voce quer abandonar a sua completude? Pra que voce quer virar solo a ser cultivado e terra a ser trabalhada, ao invés de continuar sendo uma joia intocável? Por que tornar a sua pureza acessível, abandonando a majestade que vc tem no céu?
Minha estrela, ainda sem mácula, estava pronta para virar chão. A iminência da vida , no medo do mistério e na alegria do milagre, é reverencia diante da inocência, e do imprevisto. Abandono da perfeição pela posse de um destino, promessa de integridade no sofrimento da separação, ela é a ambivalência da liberdade.
Aquela esfera sagrada estava pronta para repartir o seu ser: a iminência da vida é a concepção de um bebê.
Estrelas nascem, iluminam, tornam-se unidades isoladas em toda sua plenitude, ao mesmo tempo que  generosidade no brilho que compartilham. Não vem também disso, a beleza de um céu estrelado? Da novidade sem fim de cada estrela, ao mesmo tempo que a ligação de todas no infinito que lhes fez nascer?
A iminência da vida. Tremenda fé da criatura, enorme generosidade do criador. Na entrega de ambos, um se separa do outro, fazendo, da distancia que os distingue, promessa de comunhão.
A iminência da vida é o gesto de desapego e grandeza da mão de Deus pintada por Michelangelo ao criar o homem na separação de Si; na permissão de um adeus que se transforma num encontro de dois seres; O mesmo gesto que trazemos no fundo do coração, do momento em que aceitamos ser a estrela do meu sonho, a oferta de solidez para nossos semelhantes, a semente no ventre de nossa mãe. Um novo brilho no céu.

Proust e a Ressurreição da Carne

Proust é considerado agnóstico, por não declarar, com todas as letras, ter fé em Deus. Mauriac chega a dizer que Deus está ausente da Recherche. A palavra 'Deus' pode estar, nao a presença divina. E a palavra, na verdade, enquanto conceito, é ausência. Hegel ja mostrou que o absolutamente presente é indizível.
Proust diz que um livro com teorias é como um objeto com a marca do seu preço, (não o objeto em si) mas o objeto apontando para uma avaliaçāo numérica de si, no lugar do seu próprio valor. E como disse Oscar Wilde, o cínico sabe o preço de tudo e o valor de nada.
Ao invés de afirmar sua fé, Proust transmite a experiência desta fé, de modo que o leitor a vivencie dentro de si mesmo. Ao escrever, Proust não tem fé, ele se torna fé. Ao invés de acreditar em Deus, de se apoiar numa frase de crença, ele vivencia o divino.
Em sua experiência do espírito, no “Le Temps Retrouvé” ele se descreve, enquanto que narrador da sua obra, como o homem arrancado da cronologia do tempo, o homem que só pode encontrar seu prazer e alimento na essência das coisas; este que só se revela quando, através de uma identidade entre o presente e o passado, ele vem a se encontrar no meio atemporal, o único em que pode subsistir.
Mas nessa atemporalidade, Proust inclui a dimensão física dessa experiência, o que lhe vem pelos sentidos do corpo, as sensações que lhe transmitem a  eternidade do que viveu. Físicas e particulares, quando elas, que foram vividas no passado, irrompem no presente, criam momentos eternos. Como quando cheiramos um perfume, depois de muitos anos em que foi esquecido, e assim nos traz de volta aquele tempo passado em que era parte do nosso habito, com uma intensidade maior do que a do que é simplesmente presente.
Estando assim, numa fração de segundos, nem lá, nem cá, ou, por outra, lá, e cá, (no passado e no presente), sentimos o prazer que resulta da identificação entre o que ja foi e o que ainda é, quer dizer, a libertação da própria cronologia do tempo,  que se revela como uma familiaridade immemorial do reencontro com a eternidade. Por isso Proust diz que o verdadeiro paraíso é o paraíso perdido.
Este reencontro não pode ser alcançado pelo pensamento puro, ou pela memória voluntária, ja que tem origem numa sensação física causada pelo inesperado encontro com um objeto material no nosso caminho. Assim Proust dá prioridade `a concretude da dimensão física no alcance da essência, ou elemento atemporal: na dimensão espiritual.
O instante transcendente em que o passado ressuscita, sendo vivenciado no presente, é também a ressurreição da fisicalidade desse passado. Mantendo o elemento temporal na própria atemporalidade, ele diz: “ Tantas vezes na minha vida, a realidade me decepcionou porque, no momento em que a percebi, minha imaginação, o único órgão que goza a beleza, não podia se aplicar a ela, devido à lei inevitável que só nos permite imaginar aquilo que nao esta presente. Mas eis que de repente, o efeito dessa dura lei fica neutralizado, suspenso, por um maravilhoso expediente da natureza, que espelhou a mesma sensação no passado, o que permitiu minha imaginação apreciá-la, e no presente, quando a afetação dos meus sentidos pelo objeto que causou essa sensação, adicionou, ao devaneio da imaginação, aquilo que geralmente não se encontra nele: a idéia de existência, permitindo, graças a esse subterfúgio, que meu ser obtivesse, isolasse, imobilizasse, o que ele nunca percebe: uma parcela de tempo em estado puro.
O ser que renasceu em Proust quando, com tal tremor de felicidade, ele experimentou sensaçōes passadas sendo também vividas no presente, só se nutre da essência das coisas, e só nelas  encontra a sua subsistência.
“Que um barulho que já foi ouvido, um odor outrora respirado, sejam novamente vivenciados no passado e no presente de uma só vez, tornando-se reais sem serem atuais, ideais sem serem abstratos, a essência permanente e, habitualmente escondida das coisas, é liberada, e nosso verdadeiro eu acorda, se anima, ao receber o alimento celeste que lhe é trazido. Um instante tirado da ordem do tempo recriou, para senti-lo, o ser tirado da ordem do tempo.”
Esse ser atemporal que prova o alimento celeste a ele trazido, se encontra, por um instante, no meio em que suas sensaçōes físicas se tornam reais sem serem atuais, ideais sem serem abstratas: no paraíso.
Em outras palavras, essas sensacōes físicas são concretas, e sem se localizarem no presente cronológico, são também ideais.  Tal realidade física e portanto material, mas que não pertence `a ordem do tempo, é a ressurreição do elemento físico, e o instante liberado da cronologia do tempo (que Proust chamou de tempo em estado puro) concerne a existência concreta porém transcendente: a  ressurreição da fisicalidade, da particularidade, ou da carne.
O narrador atemporal de Proust, aquele que só vive da essência das coisas, (o nosso verdadeiro eu) é aquele que através da ressurreição das suas próprias sensações, tem a experiência de um flash do paraíso: ele é a alma de cada um de nós.

Saturday, November 16, 2019

Quem é Você?

Quem  é voce, que com sangue mostrou
O que fingimos sentir,
Para só precisar obedecer?
O que pensamos reverenciar,
se distanciando através das palavras?
Quem é voce, que ousou se deixar matar,
Liberando o todo de dentro de voce,
Amando para morrer,
Sofrendo para renascer?
Quem é voce, que honrando a terra,
Conheceu o céu,
E que sem nada ganhar
Tudo conquistou,
Que foi você mesmo,
Para em Deus poder ser?
Quem é  voce,  constante revelação
Que tanto pensamos honrar,
Transformando em repetição?
Voce, que na mão dos homens,
A nenhum pertence,
Que é  perdão na agonia;
Vitória do Amor sobre a dor?
Plenitude no Mistério,
Quem é voce, que disponível a todos
É infinita ascensão,
E que na  cegueira de nosso pensamento,
Mora em nosso coração?
Quem  é voce, que não elevou a mente sobre a matéria,
A sobrevivência sobre a sentença,
E sim o coração sobre a carne;
A Alma acima do medo?
Quem é voce, que no grande enxergou o pequeno,
No pequeno percebeu o grande,
Voce, que lembramos por dever,
Buscamos sem nenhuma dor,
E amamos sem verdadeiro amor?

Thursday, November 14, 2019

Rob Finn; lembrança de Liberdade

Outro dia, meu filho Chris, que estava de visita e preparando um jantar com os vários amigos que vêm sempre visitá-lo, me chama la da cozinha, ” Tem uma surpresa aqui pra voce!” Desci correndo, e dentre os jovens animados Rob Finn se destacou e nos abraçamos,  na alegria de um reencontro que dispensava palavras.  Reconheci facilmente, naquele cara alto, de olhos grandes e escuros, o menino que há mais de quinze anos fora o melhor amigo de Chris, quando morávamos na cidade mais careta do país.
Rob foi especial pra mim naquela época. Lembro-me a primeira vez em que fui buscá-lo em sua casa, para  passar a tarde brincando com Chris. Os dois, que não tinham mais de onze anos, ainda usavam calça curta, e quando Chris me apresentou o amigo, enquanto eu manobrava o carro em sua rua, olhei pra trás, onde estavam sentados lado a lado, e no rosto sorridente que vi, notei logo os dentinhos caninos se sobressaindo sobre os outros, “Voce tem dentes de vampiro…que fofo, nice to meet you!”, falei, acariciando os seus joelhinhos de leve, `a guisa de uma saudação. Rob, com o mesmo sorriso, respondeu descontraído, “Nice to meet you!”.
Notei, entretanto, uma expressão meio zangada no rosto de Chris.
De fato, na segunda vez em que fomos buscar Rob, Chris me disse, “ Mãe, não fica “tocando” no meu amigo…ele vai pensar que vc quer fazer sexo com ele”. Entre a surpresa e vontade de rir, achei Chris tão exagerado que dei também um tom exagerado `a minha resposta, “ Voce acha possível que uma criança da idade dele possa pensar que a mãe do amigo quer sexo com ele? Pera lá…”
Chris não falou nada, e eu continuei a ser carinhosa com Robert, como era no Brasil com as crianças de quem gostava.   Chris se lembrava disso, e resolveu relaxar. Rob era o único que parecia totalmente `a vontade com adultos, e eu achava super fofo ouvir a sua vozinha fina, cada vez que me encontrava, “Hi Mrs Dodds!”
Ele era ótimo em qualquer esporte, e junto com Chris e outros amigos viviam entrando em campeonatos de snowboard, através do país.
Um dia, quando fui buscar Pat, um dos outros, convidaram-me a entrar. Pat ainda não estava pronto, e enquanto eu falava com sua mãe, alguns dos seus irmãos se aproximaram. Durante aquela troca de assuntos vazios entre ela e eu, um pequeno anjo aparece de repente, e, bem baixinho, fica ali parado, observando-nos com olhos azuis enormes e cintilantes, no rosto rosado cheio de sardas, sob cabelos tão louros que prateados. Antes que sua mãe me dissesse quem era, não resisti afagar aquela cabecinha que parecia um raio de luz, “ Este é John, o mais moço, tem cinco anos…” ela falou, enquanto o menino enrubescido fez uma expressão furiosa e se esquivou, “ It is all right, John, behave…” a mãe lhe disse entre risos histéricos, como se compreendesse a sua reação, e lhe pedisse para ter paciência com a estrangeira que fôra "indecente" com ele.
A ficha caiu. Lembrei que minha filha, quando tinha sete anos, chegou do colégio uma vez e me disse toda orgulhosa, “Mãe, hoje eu aprendi que cada um de nós tem uma bolha invisível `a sua volta, e a gente não pode pisar dentro dela e chegar muito perto da pessoa. É a bolha da privacidade, que a gente tem que respeitar!
O que???
Pensei que ela estava brincando, pois no Brasil e nas culturas Latinas que conheço, não se traça limites imaginários nem `a volta de quem tem doença contagiosa. Lembrei-me da fúria do irmão de Pat….. “Que gente esquisita…”, pensei, “Será que tem medo fóbico de germes, ou será que veem sexo em qualquer contacto físico?”
A lembrança de uma das lavagens mentais do Admirável Mundo Novo me deu a resposta: “ Esterilização é Civilização”.
Evitar germes também significa evitar contacto físico, e contacto físico, quando tão discriminado, evoca sexo e passa a ser duplamente indecente. O jeito era mesmo eu aprender a “me comportar”. Com Rob, entretanto, nunca houve problema. Devo dizer que ele era o único a oferecer ajuda para arrumar a bagunça que faziam em nossa casa, quando brincavam. Quando decidi aprender Snowboard, ja com quarenta anos, e ia praticar na única montanha perto da cidade, morria de vergonha de envergonhar meu filho, pois além de ser muito mais velha do que a garotada, era também bastante pior. Procurava ser discreta, e nem chegar perto das pistas íngremes que eles escolhiam. Uma vez, entretanto, não houve jeito de evitar encontra-los na fila do “ski lift”. Cada um olhou para uma direção diferente, mas Rob, ao contrário, me encarou e disse, em plena nevasca, “ Hi Mrs. Dodds!”
Que educação impecável! Como podia ele agir tão diferente dos outros? Seria porque seus pais ja tinha se divorciado e estavam cada um no segundo casamento, como eu e Steve, e isso dava a Rob uma mente mais aberta? Seria também o fato do pai ser dono de um bar boêmio, aliás o único da cidade, que os impedia ser caretas? Ou simplesmente essa liberdade resultava do próprio temperamento de Rob?
Impossível dizer. So sei que além da maneira com que me tratava, o menino tinha personalidade e auto-confiança. E só mesmo a auto-confiança permite a alguém ser desarmado e aceitar carinho, sem precisar interpreta-lo.
Os Estados Unidos é um pais que orgulhosamente se considera exemplo de liberdade. Mas a cultura Americana se apoia em regras pra tudo, mesmo que não explicitamente verbalizadas. Regras sociais, regras de como andar na rua no lado certo, regras de manter distancia, regras de não olhar no rosto de quem não se conhece, regras de não beber álcool na rua, nem que seja simplesmente na calçada do bar em que se entrou. E as importantes regras de respeitar a “bolha invisível”!
Não deixo de gostar daqui, mas para mim, liberdade é ser desarmado. Liberdade é poder receber carinho, sem ver nele perversão. Liberdade é não ter que imaginar germes no azul do ar.
Liberdade é poder ver charme nos caninos de um menino, sem fazer ele ficar se torcendo de vergonha.
Aliás, dessa vez em que reencontrei Rob, fiz todo mundo rir, inclusive ele próprio, quando lhe perguntei, “ E os teus dentes de vampiro?”

Tuesday, November 12, 2019

Benki

Sempre vou lembrar quando o vi a primeira vez. Foi ele que inspirou a a musica Txai, de Milton Nascimento.
Eu e Edgar, meu irmão, o esperávamos no aeroporto, e o longo atrazo de seu avião me deu tempo pra relembrar seu rosto, cuja expressão, nas fotos que eu ja tinha visto dele, revelava intensa vida interior. Naturalmente, viria vestido como um de nós; era preciso abstrair seus traços da pintura indígena que os adornava nas fotografias que vi, e seu seu cabelo e a forma de sua cabeça, do chapéu Ashaninka com que ele aparecia nessas fotografias. E isso, sem deixar de observar o irritante abre e fecha do portão automático de uma das salas de chegadas aéreas do Santos Dumont, para poder reconhece-lo logo que aparecesse.
O abre e fecha se repetia frenético, mas as pessoas que saiam não tinham nada a ver com Benki. Me aproximando do portão , comecei a tentar localiza-lo do outro lado, durante os segundos em que as portas se abriam para cuspir alguém pra fora daquele espaço ansioso, onde passageiros, ainda despojados de sua bagagem, como que roubados de sua identidade, podiam ser vistos desamparados e anônimos `a beira de uma esteira, esperando seus pertences. Mas nem sombra de alguém que pudesse ser Benki.
Edgar decidiu ir vigiar a outra saída de passageiros, quase que na extremidade oposta do aeroporto, mas dali a alguns momentos, através de uma das brechas entre um homem gordo e a borda das portas que o expeliam, avistei la dentro um rapaz de camiseta e jeans, vestido como um de nós, mas inteiramente diferente de todos. Mais do que esbelto e alto, ele me apareceu etéreo, seu corpo parecendo responder a uma outra dimensão. Pensei nas imagens dos alienígenas no filme Close Encounters of the Third Kind, quando, saindo da nave, pareciam prestes a se desvanecer no ar. A delicadeza de Benki é a sua força.
Ao invés de grudado `a esteira de bagagens, como os outros viajantes, Benki a observava à distancia, como se contasse com todo o tempo do mundo. Mais tarde, ja na casa de Edgar, vi que mesmo na urgência  com que vive, ele tem todo o tempo do mundo, cumprindo uma missao que ja era dele antes que nascesse. "Vim para ajudar", ele diz, quando explica ser a re incarnaçao de um shaman de seu povo.
Nos momentos em que pudemos te-lo conosco e nossos amigos próximos, entre os milhares de chamados de toda parte, por todo tipo de pessoas que o seguem, fiquei fascinada. Benki é pajé e líder dos índios Ashaninka que moram na fronteira do Brasil com o Peru.
Esteve com cada um de nos em particular, e disse logo qual era o principal problema de cada um. Nos cuidou individualmente, soprando fumaça de seu cachimbo em nossa cabeça, aspirando as energias ruins do nosso peito e as cuspindo pela janela,  enquanto entoava rezas em sua língua. Mas alem de qualquer pajelança, ou do que Benki nos contou de si mesmo, o que mais me impressionou foi a sua presença. Ver para crer, ou talvez, crer para poder ver. Fica a critério de cada um.
Benki é multiforme. Parece  uma criança, ao mesmo tempo que um homem moço, e um ser de tempos imemoriais. Em sua graça, naturalmente nobre, evoca anjo e principe ao mesmo tempo. Diz-se que ele não so abre caminhos para as pessoas, mas muitas vezes as cura na origem de sua doença, que é sempre ignorada pelos medicos que so querem aliviar as consequências. Benki é tambem conhecido pela sua causa de salvar a floresta, ja tendo levado sua mensagem a vários países em encontros com lideres de diferentes nacionalidades, e mobilizado muita gente que a princípio era indiferente a essa causa. No reflorestamento que faz com o grupo de rapazes que lidera, ja plantou dois milhōes de árvores.
Alternando a realidade de fatos com a verdade de sua herança mítica, tudo que Benki diz é intenso. Ao mesmo tempo em que ele é integralmente presente, é arrebatado. Benki é paz e paixão. Humilde e consciente de seu valor. Transmite o foco da coragem incondicional, como se seu ser fosse uma oferta. Ja passou por varias ameaças de vida por parte de traficantes e madeireiros, e segue sem medo. Me fez pensar na entrega de Jesus ao Pai.
Coragem é o infinito da presença: Sincronia com o destino.

Ayahuasca, a Reconciliação


“Patriotism is the virtue of the vicious”, disse Oscar Wilde. O poeta falou pela verdade de que cada indivíduo é um cidadão da humanidade. A verdade da letra de John Lennon na musica "Imagine", que é contra todos os rótulos.
Mas alem da minha indiferença a rotulos geográficos e culturais, eu ressentia o meu pais de origem na maioria das lembranças do que vivi la na juventude. Adolescência alcoólatra, anorexia quase fatal, neurose doméstica, aridez social. Isso me permitiu morar aqui e continuar a viver como árvore transplantada. Lembrava o Brasil com um espinho no coração, entre saudade e revolta. Mas em instantes de plenitude, Ayahuasca resgatou, pra mim, o tempo da relação primordial que temos com o mundo antes da palavra; da “tradução” de outrem; do conhecimento do dever, e de tudo que enfraquece, distancia e finalmente quebra a comunhão original que temos com o que nos rodeia, na pureza da sensação e no imediatismo do sentimento.
Ayahuasca retornou o tempo em que eu e o que estava `a minha volta vivíamos num mesmo ser, como a praia de Copacabana na frente da qual foi meu primeiro lar, e quando o mar que eu via pela janela também estava estava dentro de mim. Numa cozinha que era imensa pra mim, eu tinha meu lugar a uma pequena mesa, junto de meu irmão, na sua cadeirinha de bebê. Tudo era muito alto, numa constante mutação de branco para azul, para a cor do vento, porque o vento soprava o mar pra nós, inundando tudo com o seu sussurro se misturando `a musica das ondas e ao o azul omnipresente do oceano. Tudo se interpenetrava, num movimento de cores que era ar marinho e elemento liquido ao mesmo tempo, frescura que vinha pra cozinha e pro nosso coração… Objetos e emoções, além de superfícies fixas e rótulos de palavras, criavam a mesma intensidade alegre que anulava os limites de tudo, transformando esse tudo na manifestação de algo maior.
A cozinha era o mar dentro da cozinha, o mar la fora era nossa cozinha misturando-se nele, a brisa do mar era respiração do corpo e do céu, o azul das ondas e o branco da parede eram diálogos entre o fora e o dentro, o dentro e o fora. Nosso lanche estava em cima da mesa, e a voz grossa do mar nos dizia pra comer através da nossa mãe, que perto da janela virava o rosto la pra fora pra poder fingir ser ele, e voltar a nos encarar e dizer, na sua voz normal, que o mar queria que ficássemos fortes, devíamos comer, o mar mandou.
Saber que era mamãe falando como o mar não me impedia acreditar que era o mar que falava com a gente. Tudo podia ser tudo, na unidade que as criancinhas sentem em  sua ignorância da rigidez dos conceitos e dos limites verbais. Cada vez que mamãe repetia o pedido do mar, era ele que eu ouvia, e era ela que eu amava por se tornar ele. Esse entrelaçar de cores, seres, brisa e voz, na cozinha do meu primeiro lar, retornava a unicidade daquele momento na experiência de uma essência comum do som,  tato,  vista, fora e dentro, mãe e mar, coração e vida.
Naquelas manhãs douradas, mamãe nos levava `a praia, nos mergulhava no mar, meu irmão pequenino gritando e esperneando, e nos levava de volta para nossa toalha naquela areia infinita, quando queria ir nadar sozinha. Se afastava na direção de uma onda imensa, distante e parecendo perto, seu verde sem parar de crescer, espelhando o sol como  cometa liquido em toda sua extensao, atraindo e assustando, esticando e encolhendo com o pique e curva da massa fluida no seio da qual brilhava esse cometa, coração pulsante e aniquilador; divindade pronta `a explodir e abençoar.
Determinada, mamãe se aproximava do coração luminoso de sal e luz, ficando mais e mais longe de nos, tão pequeninos na toalha rectangular, cuja precariedade, sob o comando materno de que esperássemos em cima dela , se transformava, como uma bandeira, na afirmação de nosso território, sob o sol quente de Copacabana. O mar, o céu, a areia, a onda e seu coração, os passos de mamãe na sua direção… Tudo era imenso. Não em tamanho, mas em significado, pois aquele mundo so podia ser visto com o coração. Sua imensidão era o calor gostoso sobre minha pele arrepiada, os pingos de agua salgada escorrendo do meu rosto e desaparecendo na toalha em que meu irmão ainda bebê estava deitado, tão redondo e macio perto de mim.
Nós dois, um amontoado quase amorfo de curvas e formas molhadas sobre o tecido quente que, naquele espaço infinito, continuava a ser nossa ancora na autoridade de nossa mãe; na entrega da inocência. A onda podia engolir ela ou devolve-la pra nós, mas ainda assim confiávamos. Água salgada tinha gosto de ameaça e beleza em minha boca. Aquele momento se reproduziu para sempre, em outras invisíveis de alivio e felicidade.
Ayahuasca fez as minhas raizes se revelarem dentro de mim, na imensidão de praias atemporais de um mar sem fim, me reconciliando com o solo mais orgânico e particular de onde nasci. Embora sem patriotismo, senti orgulho de vir do mesmo lugar que vem essa mistura de plantas, e das culturas nativas que a descobriu. Orgulho do Brazil ainda ter índios, e da sua floresta.
 Ayahuasca é reconciliação na esfera da nossa vida pessoal, universal e cósmica, trazendo a consciência da conexão de cada um com a criação. A rede que tudo liga e irmana, muitas vezes aparece como sentido prateado e transparente entre todos os coraçōes.
Ayahuasca é Perdão.
Pensei que um dia esse Perdão se ramificaria através do mundo, remendando a cisão feia e pretensiosa entre os homens e o planeta, esta que torna os homens exploradores, e o mundo campo de depredação. Mas enquanto nossos índios levam a mensagem do sacramento da floresta a outros países, na paciência humilde de mostrar a luz aos civilizados e ensinar aqueles que se consideram seus superiores, ha quem os mate por interesse material, em seu próprio território.
O Brasil tem, nas culturas indígenas, a inocência em estado “puro”: a vida, independente de direitos burocráticos de posse; a vida “sem lenço e sem documento”. Nascida da espontânea interação dos nativos com a terra e a água, ao invés da conquista e  da opressão. O dinheiro nunca falou tao alto, e com ele, a burrice, na ambição de vida eterna material, e conquista de Marte. Enquanto a arte sempre representou a civilizacao, e bem disse Nietzsche que é aristocratica, a ciencia, para o mesmo filosofo, é democrática e plebeia. Por isso ela "serve", é usada. Ja a arte, é contemplada, nutre o espírito. Como ayahuasca.



Monday, November 11, 2019

Amor Cósmico: Eclipse do Sol

Daqui de Boulder, vi o eclipse do sol. Saía de casa com meu cachorro, lá pelas onze e meia da manhã, pensando que o fenômeno celeste ja tinha acontecido, pois que se faz tamanha onda em torno de eventos cósmicos, dos quais muitas vezes quase nada, ou mesmo nada, se vê deles. Nessas ocasiōes, a indústria se aproveita e fabrica todo tipo de parafernália temática, em torno do evento.
Disseram-me que o eclipse de hoje seria `as dez e meia da manhã, Mountain time , mas da cozinha, já mais tarde que dez e meia, eu via a luz do sol lá fora, fixa e constante. Sabia que nessa área não faria noite total, mas mesmo assim, se algo pudesse ser visível, alguma diferença


deveria se poder notar na luminosidade do dia.
Livre do interesse de "correr" atrás do eclipse, fui saindo com o cachorro porta fora, e me surpreendo quando o jardineiro aponta pra calçada, `a beira da qual crescem várias de nossas plantas, e me diz, "Olha o eclipse..."
Nunca pensei poder ver sinal de eclipse no chão, mas as formas em meia lua das sombras que vi, repetidas infinitamente, eram sombras do próprio eclipse, mil formas que pareciam pequenos "C"s, ou luazinhas crescentes, e correspondiam`as fatias de sol cobertas pela lua. Como indicou o jardineiro, naquele chão podia ser visto o eclipse.
Por mais que se explique os fenômenos supostamente naturais, sempre que vejo um deles pela primeira vez, me sinto diante de um milagre. Como quando vejo um animal que nunca tinha visto e tenho a sensacao de estar em outro planeta. A ciencia explica e faz a natureza ficar repetitiva, virar exemplo de 'leis', sem mistério e sem beleza.
O que vi, no que tomei como sombra das folhas, foi o mundo da terra refletir o do céu; o solo ecoando o cosmos. As mil eclipsezinhas no meu chão eram mil céus sobre a minha cabeça.
Entrei correndo e peguei os óculos adequados para olhar o sol diretamente, enquanto levava o cachorro rua acima entre exclamaçōes de maravilhamento, pausas desajeitadas para reajustar os óculos, apreciar, e fotografar de qualquer jeito com o iPhone.
Eu tinha ouvido coisas sobre o eclipse, mas só posso acreditar no que eu própria senti do que vi, olhos nos olhos do satélite e da estrela, apreciando a ousadia humilde do primeiro cobrir o segundo, passando, obediente, delicada e reverente, na harmonia languida de uma carícia que se espraiou pelas diversas camadas do azul do céu, sem deixar de ser fiel ao contorno de seus corpos e agraciar de brilho a precisão tenazmente redonda do encontro de suas linhas. Eu vi, muito antes de uma interrupção de luz, a pausa de um grande ato de amor; um copular cósmico.