Saturday, November 9, 2019

Nala, o Silencio do Amor

 

Nala é a canina ideal. Nunca sujou a casa, nunca reclama quando temos que fecha-la em algum quarto quando pessoas estranhas aparecem, e sempre soube esperar a gente acordar pra lhe dar comida, fosse a hora q que fosse. E mesmo assim, antes de sair da cama que reparte com a gente, faz questão de esperar que eu lhe de carinho, antes de acompanhar o meu marido e ganhar dele a primeira refeição, la embaixo na cozinha. A excitação de esperar por sua refeição nao se compara `a alegria que toma conta dela quando percebe que vai passear la fora. Pega sua coleira nos dentes e vai desfilando ate a porta, altiva, misturando orgulho e dignidade. Ta na cara que ela valoriza mais repartir o mundo comigo num passeio, do que obedecer ao seu estômago. Por isso, nao gosto que digam que ela "vive pra comer". Falo que nao é nada disso. Mas as pessoas se fixam no cliche. Mais do que qualquer cachorro que conheci, Nala tem capacidade de maravilhamento. `As vezes me olha de um jeito que me cai a ficha que diz: "Seja quem o seu cachorro pensa que voce é". O olhar de Nala nesses momentos é tao comovente e tanto me santifica, que me sinto insignificante. O rostinho dela fica iluminado, e os seus olhos redondos e derretidos fixados em mim, como diante de um anjo, ou de Deus.
Dei a ela uma bola de plástico transparente, com um interior cheio de luzes coloridas que piscam sob qualquer atrito. Quando vi o fascinio com que Nala recebeu a bota, me perguntei porque pensam que cachorro nao ve cor. Ela estava siderada. Com a bola entre suas patas, parecia olhar para uma joia preciosa que podia amar e ao mesmo tempo possuir. Mordiscava a sua superfície com tal deleite e respeito, fazendo pausas para me olhar agradecida. Pensei que aquele brinquedo, que fôra feito pra crianças, era como a primeira boneca para uma menina, ou o anel de noivado para uma mulher. Nala fica em transe entre suas mordidas e as pausas que faz para apreciar a bola.
Meu vinculo com Nala é inesquecível. Eu, Olivia e seu pai, estavamos meio que acampados numa casa alugada, grande, decadente, e assombrada.
Olivia, no orgulho, intolerância, e suposta auto-suficiência dos seus quinze anos,  escolheu morar no basement da casa e fazer daquela grande extensão húmida, escura, e segundo ela própria, preferida dos fantasmas, a sua área. De noite, tirava Nala de mim e a levava  Nala pra dormir com ela porque tinha medo. Naquela vez, eu tinha descido cautelosa para desejar Olivia boa noite. Até bem pouco tempo, ela fôra minha filha-amiga- de -copo- e de cruz, mas no meu geriátrico relógio interno, passou da noite pro dia a me olhar com pra alguem que de quem tinha vergonha. A esse ponto sei que sou e sempre fui "a misfit" e não deve ser fácil ser meu filho e querer me adequar ao mundo. Mas pra mim também não é fácil lidar com a critica deles, e eu estava na pior. Nala estava deitada numa almofada no chão e dava pra ver que ela, de quem meu filho Chris recentemente tinha se despedido pra viajar e a deixado comigo, estava num limbo, assim como eu, que sem conhecer ninguém numa cidade nova e numa casa decrépita, com marido ausente em viagem e filha adolescente estranhando, me sentia ignorada pelo mundo.
A TV na parede acabava de mostrar a cena do filme Life of Py, em que o menino, dentro do barquinho quase naufragando, grita para o tigre que vinha tentando salvar contra todas as circunstâncias dificeis do meio de um oceano infinito, ”We are dying, Py!”
Minha filha estava no seu computador e revirou os olhos quando eu lhe disse boa noite. Contendo as lagrimas antes de sair do quarto, vi Nala jogada ali numa almofada no chão, como o tigre no banco do barco, eu e ela, deixadas pra trás e tendo deixado tudo pra trás.  
Num impulso, me abracei com ela, ” Good-night, girl, I love you”. Ela me olhou, “dizendo” que entendia, tenho certeza. E nunca mais me trocou por Chris,  que acabou deixando ela de vez comigo. Diferente de nossos outros cachorros, que sempre preferem, como ele diz, o "seu pack", Nala foi fiel a mim durante todo o resto de sua vida. Eu pensava que meus dias se acabariam com os dela por causa do nosso vinculo, da solidão mutua que nos unia.
Nada é mais sublime do que o amor incondicional. Ate hoje, me pergunto se não teria sido melhor que meu tempo terminasse com o dela. Eu e ela, minha Nala girl!

No comments:

Post a Comment