Thursday, November 7, 2019

Papai, Lucio Costa, e o Sentido do Sagrado


    
Ainda me lembro do Cristo mais belo que ja vi pregado `a sua cruz, e expressando, em seu rosto tombado, a união de majestade e dor. Era uma escultura gigantesca, bem maior que tamanho natural, que ficava na parede da sala de jantar, cujo pé direito era bem elevado, de nossa casa em Petrópolis.   Almoçávamos e jantávamos sob a grandeza do Cristo. Com não mais que cinco anos, me lembro de como eu deixava meus olhos seguir qualquer das linhas daquele corpo branco de gesso,  percorrer os braços abertos, o pescoço,  o belo rosto,  os espinhos, que em torno da cabeça santa irradiavam  mais grandeza do que a coroa de um rei.
   Verdade que papai, que tinha sobrancelhas  caídas sobre olhos azuis sofridos,  dera seus próprios traços a Jesus, e talvez na minha cabeça infantil os dois se misturassem um pouco. Mesmo que papai tivesse tudo para ser considerado “mimado” pela vida, a cruz que carregava era a sua familiaridade com o caráter cego da dor.
   Papai  fez tantas esculturas religiosas quanto fez corpos femininos sensuais, cuja beleza ele cultuava.  Declarava-se ateu com orgulho, e durante minha adolescência, eu tentava discutir com ele sobre  a existência do Criador.  Mas ele não me dava chance de abrir a boca. Pouco a pouco, percebi, no orgulho do seu ceticismo, mais uma das ramificações de um machismo exacerbado. A aridez dos argumentos biológicos que ele usava, a exatidão anti poética da realidade biológica em que tudo ele baseava, a insistência  em “ver para crer”,  na sua maneira de falar, pareciam expressar, mais que qualquer coisa, o fato de que um verdadeiro  homem não precisa  de muletas no “outro mundo”.
    Mas estivesse papai esculpindo nus,  fazendo bustos de pessoas conhecidas, esculturas abstratas, ou arte sacra,  era o Cristo que ele fazia com paixão; era com o Cristo que ele, compartilhando o mesmo rosto, realmente comungava.
 Havia um padre, amigo da familia, que lhe encomendava arte sacra, e um dia pediu que papai fizesse uma estátua da Virgem em tamanho pouco maior que o natural. Eu e meu irmão, ainda bem pequenos, nos quedávamos ao lado dela, ainda em gesso, tão alva, simples, e contida na sua própria doçura, que nos fazia sentir diante de uma santa verdadeira.
   Eventualmente, soube que logo que o padre viu a escultura pronta,  exclamou (sem por isso, deixar de aceita-la)   “ Que o Sr. faça Jesus com o seu rosto, se pode entender, mas a Virgem, pelo amor de Deus!”
  O fato é que a partir de seus próprios traços, papai conseguia dar intensidade religiosa, fosse à Mãe, ou ao Filho.
   Isso me faz pensar no que me disse Lucio Costa, citando Le Corbusier, para explicar a sua própria posição religiosa: “Sou ateu, mas tenho o sentido do Sagrado”  Je ne suis pas croyant, mais j’ai le sens du Sacré
   Essa humildade  era também convicção,  Lucio libertando a divindade  dos limites das afirmaçōes verbais.  Entre pensar que se tem fé e e se ter realmente, existe o mesmo abismo que separa o respeito do medo, a entrega da auto- afirmação. 
   Enquanto afirmações de fé resultam do medo,  não expressam mais do que   que a necessidade de auto preservação. Já o sentido do sagrado é reverencial porque se rende `a presença divina.

   Papai nos  transmitiu importância moral  em tudo que  nos ensinou, revelando claramente o respeito que ele mesmo tinha por princípios abstratos e  invisíveis. Por uma autoridade maior. Não esqueço  o dia em que,  na praia com ele e meu irmão,  presenciamos, ao nos afastarmos de um castelo de areia que tínhamos feito,  um grupo de meninos o destruindo a pontapés.  Papai parou, para dar a devida importância ao que nos disse,  e com tanta calma quanto convicção, decretou: “Só se deve destruir alguma coisa, se puder se fazer outra melhor.”
   So precisou dizer isso uma vez, para  nunca mais esquecermos. No respeito que mostrou pela criação,  conseguiu transmitir o sentido do sagrado. Não só entendemos a sua mensagem, como percebemos o ridículo da raiva, da inveja, e da inferioridade que originam o  vandalismo.
    Não é qualquer um que tem o sentido do sagrado.  Tenho certeza de que se o mundo inteiro fosse ateu mas todos os homens soubessem  respeitar, ao invés de obedecer, Deus estaria mais contente, e o planeta em melhores condições.

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