Tuesday, October 29, 2019

O Mais Lindo Passeio do Mundo


   Passei quase uma semana em Esalen,  em Big Sur, tipo duas horas de San Francisco.  Me inscrevi num programa individual de reflexão, ao contrario da maioria dos que estavam la e  participavam em grupo de workshops variados.  O único jeito de poder se encontrar e quebrar por um tempo, o estado de constante plantão em que a rotina nos força,  é se retirar.  Passei dias de silencio, solidão, e distancia da internet,  quando eu só me comunicava com  o céu, as árvores,  o mar ali abaixo do despenhadeiro rochoso, e a minha própria escrita. A sobremesa  foi o passeio de carro pela costa com meu filho Chris,  que foi me buscar.
   Sempre amei o mar, e vivi diante da praia durante muitos anos no Rio. Em criança, levei muitos caldos das ondas; em adolescente,  aderi,`a “religiao” de se render ao sol tropical ao lado de outros corpos imoveis como mumias para se bronzear. Quando virei mãe, o oceano me deu a sublime missão de apresentar a inocência do seu poder,  ao poder da inocência de meu pequeno filho,  que se deleitava nas águas salgadas. Mas em todos esses anos de convívio com o mar, nunca tive  a comunhão que vivi com ele, na volta de Big Sur.  A estrada que pegamos estava deserta. Tinha sido fechada por vários dias por causa do fogo que assolou partes da California, e, recentemente aberta, estaria vazia se não fosse por Chris e eu dentro do seu carro em movimento. Em toda aquela imensidão, era como se fossemos os primeiros a pisar num planeta de pura beleza, eu e ele parando aqui e ali,  para apreciar ao ar livre, a fúria eufórica das ondas na branquidão nervosa da sua explosão contra as pedras angulosas de seu caminho, e a rocha íngreme da costa. A extensão de areia entre o rochedo e as camadas de espuma branca  era impiedosamente submersa  sob corrida da massa de água que investia contra a encosta final.  Inacessíveis, algumas daquelas  pequenas praias mantinham o mar intocável e inteiro, todo para si próprio.  Sagrado.  
   Num dado momento, quando Chris decidiu estacionar na estreita faixa de terra entre a pista e o despenhadeiro, avistamos um grande e elevado assento, feito de dois grossos troncos de árvore em estado bruto.  Senti-me tonta só de olhar, `a beira dos meus passos, na força do encontro  do  mar com  a costa, um espetáculo extremo, quando a morte e a beleza  se tornam parte da mesma revelação. Temor e atraçǎo pelo que via, minha vertigem era fuga e busca. Da beleza apocalíptica,  que é espelho da morte no  poder esmagador, inocente, e indomável da divindade, aquela vertigem misturava a vontade de auto-aniquilação e o medo dessa vontade, quando a busca de perdäo por minha insignificância e pequenez lutava com o reflexo de auto-preservação. A atraçǎo de um poder tao extremo quanto arrebatador, se aproxima da experiencia mística diante da divindade, que Rudolph Otto chamou de Mysterium Tremendum et Fascinans.  
Chris sugeriu que eu me sentasse naquele assento da junção dos troncos, e tive que subir num degrau num dos lados para conseguir me içar `a sua altura. Com a grandeza do mar a meus pés e dentro do meu coração, eu estava no único trono verdadeiro de todo este mundo.

Espiritualidade Agressiva


   Chris chamou de espiritualidade agressiva a atitude de pessoas que vem prefaciar qualquer evento com termos supostamente espirituais,   Vamos segurar o espaço (hold the space)… vamos lembrar que somos todos conectados com a criação original, vamos  isso e aquilo”.
Espiritualidade virou  critério de diferença entre quem ta por dentro e quem não esta, pra maioria das pessoas que se considera espiritual. Virou produto e moda. Conhecemos gente que participa de círculos "espirituais" de maconha, de respiração, de peyote, de meditação “trans pessoal”, círculos para honrar o sagrado feminino, círculos de tudo que se pode imaginar, e se não incluo rituais de Ayahuasca entre eles é pra não jogar o sacramento da Floresta nesse saco“multi-místico” que lembra um “combo” do Mac Donald’s.

Nem de propósito, quando estivemos na California nos feriados de Natal e Ano Novo, encontramos, na casa que alugamos, milhões de exemplares de um livro de ensinamentos "espirituais", que era um grotesco "how to" (como fazer para) ser poderoso e conseguir sucesso, num mumble jumble de física e espiritualidade. O livro definia a graça religiosa, da seguinte maneira:
“Graça é o girar dos campos de torção que formam a matéria, a realidade, e a experiencia”.
 Pra completer a ideia geral do livro, nas credenciais do cara que escreveu o prefácio, foi mencionado o que ele próprio escreveu, sobre a ciência física de fazer milagres.

Eu tinha achado aquela casa bem legal, diante do mar e bem dividida internamente. Podia se ver o por do sol de cada uma de suas salas comunicantes, e da varanda a que davam acesso. Podíamos estar todos juntos naquela area sem nos sentir um em cima do outro, repartindo o mar, o céu e o sol, enquanto fazíamos coisas diferentes. A possibilidade de ter pessoas que amamos simplesmente respirando sob o mesmo teto que nós se revelou pra mim.  Ate perceber que a autora do livro era a proprietária da casa, eu tinha pensado que quem morava ali devia ter uma cuca boa. Mas quando pensei que aquele livro devia ter sido escrito ali, fiquei me perguntando como a autora dele pôde usar a vista do mar, do sol e do céu ali na frente, como pano de fundo pra sua vontade de explicar e dominar a divindade. 
Nem a paz da linha do horizonte, nem o azul do oceano pôde fazer com que baixasse as armas. Armas que se fantasiam de “ciência” para tirotear a liberdade do espírito, inventando regras para se aprender, obedecer, e fazer acontecer. 
Na terra do controle remoto, tudo tem que ser controlado. Mas pra espiritualidade dar a impressão de que pode virar opção de controle remoto,  tem de se tentar  transforma-la em ciência e roubar  seu mistério.
 O livro da proprietária  tinha  promessas veladas de sucesso financeiro. Claro. Quem quer controlar, quer dinheiro.  E quem  tem saco pra tentar aprender a controlar o mundo espiritual em favor próprio é incapaz de  baixar as armas, de, justamente, abaixar a cabeça e se render ao espirito. 

DisneysSense

Aqui vai a crítica que saiu com o nome “A Filosofia de Disney”, escrita pela jornalista americana Peggy Mac Donald- Demosthenous, sobre o livro que venho fazendo e ilustrando em torno de Walt Disney.
In Homage of Diane Disney Miller 
“Juntando-se aos grandes pensadores, que através dos séculos tentaram descobrir o sentido da vida, a filósofa Eleonora Duvivier analisa a esfera mística e metafísica através de um tema fora do comum: Disney.
Disneyssense foi precedido por seu outro livro “From Mars to Marceline- In Search of Disney” (De Marte`a Marceline- Em busca de Disney) que é uma mistura de fatos históricos relacionados a Disney, filosofia, e puro amor por Walt Disney, e o que ele criou.
Eleonora compara Walt a pensadores de grande influência, como Sócrates, e Kierkegaard. Para ela, ele identificou a esfera mística com a corporal, em novas formas de entretenimento, que incorporam nossos sentidos. As atrações revolucionárias que criou nos seus parques temáticos são as primeiras que dão aos espectadores a oportunidade de mergulhar nas estórias que elas desenrolam, e virar seus próprios atores.
“Disney plantou a semente do que, na arte contemporânea, se chama Interação Contemplativa , e que, referindo-se a obras de instalação, requerem a imersão do espectador dentro delas, para que se revelem, através da interação com ele, que ao mesmo tempo se torna agente”, ela diz, em Disneyssense. “A esfera mística, que considero a da comunicação entre realidades heterogêneas, é responsável por transformar esse espectador em quem dá validez ao brinquedo e portanto o recria, ao mesmo tempo em que se transforma em personagem, igualmente se recriando. Em relação `a transformação mística desse espectador, ele passa a ser a união de criatura e criador, assim como Walt, que através de Mickey, que também é ele e é quem ele cria, representa o amor e o laço entre criador e criatura.
O exame que Eleonora faz da arte de Disney combina rigorosa análise, com ousada adoração por Walt Disney e pela criação a que ele deu origem, que continua encantando os jovens e os jovens de alma, através do mundo. Às vezes, seu estilo etéreo é novo e único, como no seguinte trecho de Disneyssense:
“ Injetando personalidade, como foco principal de seu desenho animado, no personagem em volta do qual tudo gira, acima dos limites do que conhecemos por mundo físico que, no caso dessa animação, pode encolher e esticar superando suas próprias formas, ao se transformar em resposta `aquela personalidade, Walt injeta personalidade acima das leis da ciência, da lógica, ou da mera contingencia, como uma proclamação da alma sobre a matéria. Do mesmo modo, sua reinvenção do elemento fisico, enquanto movimento e visibilidade da fantasia, representa a ascendência da vida, sobre a realidade”.
Eleonora se apaixonou pelo mundo de Disney, quando ainda criança. Com seis anos, viveu com seus avós-enquanto seus pais estudavam arte na Europa- frequentando uma escola de freiras no Rio de Janeiro, que lhe foi traumática. A menina de então encontrou-se num impasse, diante das lições de religião, que enfatizavam a penitencia e o medo do inferno, como caminho para o Paraíso. Sentiu-se salva, pelo seu primeiro encontro com o desenho animado Disney, na tela do cinema.
“Dilacerada entre o o pânico do inferno e o medo de falhar com os princípios religiosos, eu fui, numa tarde abençoada, levada ao cinema, para ver A Bela Adormecida. Foi minha primeira vez, diante da grande tela. De repente, nascendo do escuro da sala, todas as cores do arco- íris apareceram na minha frente e me revelaram não só a beleza e magica do movimento de personagens fantásticos, desenhados e multicolores, como a vitória do Bem através do amor; o Final Feliz, aqui na terra. Desde então, passei a me sentir ou no inferno, ou no paraíso. O paraíso era o mundo de Disney. Fosse em figurinhas, ou no próprio desenho animado, a imagem de Aurora,  A Bela Adormecida, ficou comigo pra sempre, trazendo um  sentimento de alívio transcendente."
A caminho da universidade de Boston, para estudar filosofia, Eleonora fez sua primeira viagem a Walt Disney World. “Estar num contexo em que se pode “deixar rolar” é uma benção, e corresponde a um sentimento de redescoberta que é abandono, e ao mesmo tempo, reencontro.”
Amantes de Disney se relacionam com as emoções e idéias, que Eleonora articula com tanta eloquência, e acompanham suas reflexões poéticas on line
Eleonora estudou filosofia nos Estados Unidos, Inglaterra, e Brasil. Depois de alguns cursos a nível de pós graduação, ela deixou os estudos acadêmicos, para seguir seu interesse por Disney.
“Olhar Disney filosoficamente tem mais a ver com meu temperamento introspectivo, que naturalmente questiona a vida, do que com uma decisão a priori de faze-lo”, explica. “Essa visão amadureceu quando eu finalmente li as biografias de Walt Disney, assim como muitos outros livros sobre a animação Disney, e percebi a afinidade entre o temperamento de Walt, sua conduta e attitude diante da vida, com tudo a que deu origem.
Bem diferente das biografias de Walt Disney, Disneyssense procura capturar o seu espirito num nível metafísico. Com suas conclusões místicas, Eleonora corteja Disneyphilles de todos os lugares e idades.
De acordo com ela, eles se classificam nas seguintes categorias:
Disney historiadores, Disney aficionados, Disney “geeks”, Disneyans (aqueles que encontram suas raizes no mundo de Disney), Disneystatics (que conheceram a felicidade através de Disney) Disneykharmics (que têm compulsão de ir aos parques, como se os conhecessem de outras vidas) e Waltists (que pensam ser os únicos que realmente decifram Walt Disney).
Colocando o homem atrás de Mickey em cima de um pedestal, Disneyssense seguramente agrada a todos estes."