Thursday, November 7, 2019

A Arte de se Vestir




 
  Mas neste texto, quero considerar, inerente ao bom gosto, a dimensão ritualística do que, aparentemente, não passa de uma feliz combinação de peças de roupa.
   O que  melhor expressa o que digo é a descrição de Marcel Proust sobre a mulher que ele, adolescente, admirava diariamente, passeando no Bois de Boulogne.  A ex -cocote Odette de Crécy, então transformada pelo casamento em Mme Swann, é a musa  que o jovem Marcel orgulhosamente acompanhava nesses passeios, e de quem diz, apreciando a sua indumentária :

“ Et je comprenais que ces canons selon lesquels elle s’habillait, c’était pour elle-même qu’elle y obéissait, comme `a une sagesse supérieure dont elle eût été la grande prêtesse:”
“ Eu percebia que os princípios de acordo com os quais ela se vestia, ela os obedecia para si própria, como que a uma sabedoria superior da qual ela fosse a grande sacerdotiza:”

   Ilustrando o que diz, Proust então descreve os lindos detalhes da vestimenta de Odette, como as minúcias no avesso de sua jaqueta, que teriam pouca chance de serem vistas por outros que não ela, ou seja, minúcias que existiam em si próprias,  no pacto com a beleza e a qualidade, independentemente de qualquer finalidade exibicionista ou utilitária. Como sacerdotiza, Odette honrava uma realidade tao livre e tao em si mesma que transcendia.
   Nela vive o requinte das embalagens de cosméticos ou perfumes, que sao destinadas `a lata de lixo uma vez que delas se extrai o produto ou o perfume. Steve Jobs exigiu que a experiencia estética dos produtos Apple começasse a partir do contacto com a sua embalagem. Na mesma veia ritualística, muitas mulheres brincam com maquillage diante do espelho, fazem poses sem ter auditório, ou melhoram “selfies” que nunca serão vistos por ninguém. Nada disso é util, mas a utilidade responde `a finitude do tempo. Como Deus existe, existe a estética, que fala `a contemplação.  
O belo conta estórias,  enquanto o útil decreta pontos finais. O primeiro encanta, o segundo escraviza.  Se um está alem, o outro vive aquém; o belo sendo excelência, e o útil cobrança, a utilidade aprisionando, e a beleza libertando.

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