Tuesday, November 12, 2019

Benki

Sempre vou lembrar quando o vi a primeira vez. Foi ele que inspirou a a musica Txai, de Milton Nascimento.
Eu e Edgar, meu irmão, o esperávamos no aeroporto, e o longo atrazo de seu avião me deu tempo pra relembrar seu rosto, cuja expressão, nas fotos que eu ja tinha visto dele, revelava intensa vida interior. Naturalmente, viria vestido como um de nós; era preciso abstrair seus traços da pintura indígena que os adornava nas fotografias que vi, e seu seu cabelo e a forma de sua cabeça, do chapéu Ashaninka com que ele aparecia nessas fotografias. E isso, sem deixar de observar o irritante abre e fecha do portão automático de uma das salas de chegadas aéreas do Santos Dumont, para poder reconhece-lo logo que aparecesse.
O abre e fecha se repetia frenético, mas as pessoas que saiam não tinham nada a ver com Benki. Me aproximando do portão , comecei a tentar localiza-lo do outro lado, durante os segundos em que as portas se abriam para cuspir alguém pra fora daquele espaço ansioso, onde passageiros, ainda despojados de sua bagagem, como que roubados de sua identidade, podiam ser vistos desamparados e anônimos `a beira de uma esteira, esperando seus pertences. Mas nem sombra de alguém que pudesse ser Benki.
Edgar decidiu ir vigiar a outra saída de passageiros, quase que na extremidade oposta do aeroporto, mas dali a alguns momentos, através de uma das brechas entre um homem gordo e a borda das portas que o expeliam, avistei la dentro um rapaz de camiseta e jeans, vestido como um de nós, mas inteiramente diferente de todos. Mais do que esbelto e alto, ele me apareceu etéreo, seu corpo parecendo responder a uma outra dimensão. Pensei nas imagens dos alienígenas no filme Close Encounters of the Third Kind, quando, saindo da nave, pareciam prestes a se desvanecer no ar. A delicadeza de Benki é a sua força.
Ao invés de grudado `a esteira de bagagens, como os outros viajantes, Benki a observava à distancia, como se contasse com todo o tempo do mundo. Mais tarde, ja na casa de Edgar, vi que mesmo na urgência  com que vive, ele tem todo o tempo do mundo, cumprindo uma missao que ja era dele antes que nascesse. "Vim para ajudar", ele diz, quando explica ser a re incarnaçao de um shaman de seu povo.
Nos momentos em que pudemos te-lo conosco e nossos amigos próximos, entre os milhares de chamados de toda parte, por todo tipo de pessoas que o seguem, fiquei fascinada. Benki é pajé e líder dos índios Ashaninka que moram na fronteira do Brasil com o Peru.
Esteve com cada um de nos em particular, e disse logo qual era o principal problema de cada um. Nos cuidou individualmente, soprando fumaça de seu cachimbo em nossa cabeça, aspirando as energias ruins do nosso peito e as cuspindo pela janela,  enquanto entoava rezas em sua língua. Mas alem de qualquer pajelança, ou do que Benki nos contou de si mesmo, o que mais me impressionou foi a sua presença. Ver para crer, ou talvez, crer para poder ver. Fica a critério de cada um.
Benki é multiforme. Parece  uma criança, ao mesmo tempo que um homem moço, e um ser de tempos imemoriais. Em sua graça, naturalmente nobre, evoca anjo e principe ao mesmo tempo. Diz-se que ele não so abre caminhos para as pessoas, mas muitas vezes as cura na origem de sua doença, que é sempre ignorada pelos medicos que so querem aliviar as consequências. Benki é tambem conhecido pela sua causa de salvar a floresta, ja tendo levado sua mensagem a vários países em encontros com lideres de diferentes nacionalidades, e mobilizado muita gente que a princípio era indiferente a essa causa. No reflorestamento que faz com o grupo de rapazes que lidera, ja plantou dois milhōes de árvores.
Alternando a realidade de fatos com a verdade de sua herança mítica, tudo que Benki diz é intenso. Ao mesmo tempo em que ele é integralmente presente, é arrebatado. Benki é paz e paixão. Humilde e consciente de seu valor. Transmite o foco da coragem incondicional, como se seu ser fosse uma oferta. Ja passou por varias ameaças de vida por parte de traficantes e madeireiros, e segue sem medo. Me fez pensar na entrega de Jesus ao Pai.
Coragem é o infinito da presença: Sincronia com o destino.

1 comment:

  1. Olá. Me chamo Francisco Vieira, sou natural da cidade de Barras no Estado do Piauí, terra natural do seu bisavô General Gregório Taumaturgo de Azevedo. Há 10 anos procuro um parentesco do fundado homem que foi Governador do Piauí e do Amazonas e decretou a criação da nossa cidade, além de criar a cidade de Cruzeiro do Sul.
    Apesar da importância do seu bisavô para nossa terra, pouco se sabe, ou seja, sabemos o básico sobre ele.
    Gostaríamos de saber se há a possibilidade de você está nos ajudando a reescrever a história da nossa terra em relação ao seu bisavô?

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