
“Patriotism is the virtue of the vicious”, disse Oscar Wilde. O poeta falou pela verdade de que cada indivíduo é um cidadão da humanidade. A verdade da letra de John Lennon na musica "Imagine", que é contra todos os rótulos.
Mas alem da minha indiferença a rotulos geográficos e culturais, eu ressentia o meu pais de origem na maioria das lembranças do que vivi la na juventude. Adolescência alcoólatra, anorexia quase fatal, neurose doméstica, aridez social. Isso me permitiu morar aqui e continuar a viver como árvore transplantada. Lembrava o Brasil com um espinho no coração, entre saudade e revolta. Mas em instantes de plenitude, Ayahuasca resgatou, pra mim, o tempo da relação primordial que temos com o mundo antes da palavra; da “tradução” de outrem; do conhecimento do dever, e de tudo que enfraquece, distancia e finalmente quebra a comunhão original que temos com o que nos rodeia, na pureza da sensação e no imediatismo do sentimento.
Ayahuasca retornou o tempo em que eu e o que estava `a minha volta vivíamos num mesmo ser, como a praia de Copacabana na frente da qual foi meu primeiro lar, e quando o mar que eu via pela janela também estava estava dentro de mim. Numa cozinha que era imensa pra mim, eu tinha meu lugar a uma pequena mesa, junto de meu irmão, na sua cadeirinha de bebê. Tudo era muito alto, numa constante mutação de branco para azul, para a cor do vento, porque o vento soprava o mar pra nós, inundando tudo com o seu sussurro se misturando `a musica das ondas e ao o azul omnipresente do oceano. Tudo se interpenetrava, num movimento de cores que era ar marinho e elemento liquido ao mesmo tempo, frescura que vinha pra cozinha e pro nosso coração… Objetos e emoções, além de superfícies fixas e rótulos de palavras, criavam a mesma intensidade alegre que anulava os limites de tudo, transformando esse tudo na manifestação de algo maior.
A cozinha era o mar dentro da cozinha, o mar la fora era nossa cozinha misturando-se nele, a brisa do mar era respiração do corpo e do céu, o azul das ondas e o branco da parede eram diálogos entre o fora e o dentro, o dentro e o fora. Nosso lanche estava em cima da mesa, e a voz grossa do mar nos dizia pra comer através da nossa mãe, que perto da janela virava o rosto la pra fora pra poder fingir ser ele, e voltar a nos encarar e dizer, na sua voz normal, que o mar queria que ficássemos fortes, devíamos comer, o mar mandou.
Saber que era mamãe falando como o mar não me impedia acreditar que era o mar que falava com a gente. Tudo podia ser tudo, na unidade que as criancinhas sentem em sua ignorância da rigidez dos conceitos e dos limites verbais. Cada vez que mamãe repetia o pedido do mar, era ele que eu ouvia, e era ela que eu amava por se tornar ele. Esse entrelaçar de cores, seres, brisa e voz, na cozinha do meu primeiro lar, retornava a unicidade daquele momento na experiência de uma essência comum do som, tato, vista, fora e dentro, mãe e mar, coração e vida.
Naquelas manhãs douradas, mamãe nos levava `a praia, nos mergulhava no mar, meu irmão pequenino gritando e esperneando, e nos levava de volta para nossa toalha naquela areia infinita, quando queria ir nadar sozinha. Se afastava na direção de uma onda imensa, distante e parecendo perto, seu verde sem parar de crescer, espelhando o sol como cometa liquido em toda sua extensao, atraindo e assustando, esticando e encolhendo com o pique e curva da massa fluida no seio da qual brilhava esse cometa, coração pulsante e aniquilador; divindade pronta `a explodir e abençoar.
Determinada, mamãe se aproximava do coração luminoso de sal e luz, ficando mais e mais longe de nos, tão pequeninos na toalha rectangular, cuja precariedade, sob o comando materno de que esperássemos em cima dela , se transformava, como uma bandeira, na afirmação de nosso território, sob o sol quente de Copacabana. O mar, o céu, a areia, a onda e seu coração, os passos de mamãe na sua direção… Tudo era imenso. Não em tamanho, mas em significado, pois aquele mundo so podia ser visto com o coração. Sua imensidão era o calor gostoso sobre minha pele arrepiada, os pingos de agua salgada escorrendo do meu rosto e desaparecendo na toalha em que meu irmão ainda bebê estava deitado, tão redondo e macio perto de mim.
Nós dois, um amontoado quase amorfo de curvas e formas molhadas sobre o tecido quente que, naquele espaço infinito, continuava a ser nossa ancora na autoridade de nossa mãe; na entrega da inocência. A onda podia engolir ela ou devolve-la pra nós, mas ainda assim confiávamos. Água salgada tinha gosto de ameaça e beleza em minha boca. Aquele momento se reproduziu para sempre, em outras invisíveis de alivio e felicidade.
Ayahuasca fez as minhas raizes se revelarem dentro de mim, na imensidão de praias atemporais de um mar sem fim, me reconciliando com o solo mais orgânico e particular de onde nasci. Embora sem patriotismo, senti orgulho de vir do mesmo lugar que vem essa mistura de plantas, e das culturas nativas que a descobriu. Orgulho do Brazil ainda ter índios, e da sua floresta.
Ayahuasca é reconciliação na esfera da nossa vida pessoal, universal e cósmica, trazendo a consciência da conexão de cada um com a criação. A rede que tudo liga e irmana, muitas vezes aparece como sentido prateado e transparente entre todos os coraçōes.
Ayahuasca é Perdão.
Pensei que um dia esse Perdão se ramificaria através do mundo, remendando a cisão feia e pretensiosa entre os homens e o planeta, esta que torna os homens exploradores, e o mundo campo de depredação. Mas enquanto nossos índios levam a mensagem do sacramento da floresta a outros países, na paciência humilde de mostrar a luz aos civilizados e ensinar aqueles que se consideram seus superiores, ha quem os mate por interesse material, em seu próprio território.
O Brasil tem, nas culturas indígenas, a inocência em estado “puro”: a vida, independente de direitos burocráticos de posse; a vida “sem lenço e sem documento”. Nascida da espontânea interação dos nativos com a terra e a água, ao invés da conquista e da opressão. O dinheiro nunca falou tao alto, e com ele, a burrice, na ambição de vida eterna material, e conquista de Marte. Enquanto a arte sempre representou a civilizacao, e bem disse Nietzsche que é aristocratica, a ciencia, para o mesmo filosofo, é democrática e plebeia. Por isso ela "serve", é usada. Ja a arte, é contemplada, nutre o espírito. Como ayahuasca.
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