Friday, November 8, 2019

Txana e o Vento



Numa última noite de uma visita ao Rio, eu e minha filha Olivia nos vimos sozinhas, sem ninguém de quem nos despedir. Eu que nasci naquela cidade, ja não era mais parte da rotina dos habitantes, mas tampouco era turista. Gostaria de encontrar alguma coisa pra fazer que distraísse Olívia, que lhe desse a sensação de participar um pouco mais daquela cidade que ela tanto adorava. Mas o que?
Foi então que   Txana telefonou, e disse que viria jantar conosco, ali no hotel onde estávamos, cujo restaurante é em frente à praia do Arpoador. Eu e Olivia escolhemos  uma mesa ao ar livre, na calçada, e ficamos esperando. Mas como o restaurante pode ser acessado pela praia e pelo hotel, cujo lobby dá pra rua, ficamos de olho nas duas entradas. Dali a um tempo distinguimos a silhueta de Txana  caminhando na calçada do  mar e vindo ao nosso encontro.  O vento soprava, e, a despeito das luzes dos postes que iluminam a praia, a imagem de Txana, andando livremente, não era nítida, como que misturada ao movimento dos próprios elementos; do mar, da brisa, e das gradaçōes da luz. So então percebi que ele caminha de um modo totalmente diferente dos outros. Percebi que não era a pouca luz, ou o caos que o vento causava  nas formas visíveis, como nas folhas dos coqueiros que pareciam se mexer em todas as direçōes, que nos impedia ver Txana com clareza.  Era a sua própria maneira de andar. Enquanto na maioria das pessoas, a parte inferior do corpo se mexe praticamente independente da superior, todo o ser de Txana participava do seu caminhar,   como uma alga nadando no mar. Se a perna direita era a que vinha na frente, todo o lado direito de seu corpo parecia prolongar o movimento dela em linhas invisíveis, e reciprocamente, quando era a vez da perna esquerda.  A principio, lembrei-me de  Mogli, no filme Disney  “The Jungle Book”. Pensei que seria o andar adequado `a floresta,   mas me lembrei de outros índios que conheço e  que não caminham daquele jeito.  Txana é único  nos menores movimentos, que são absolutamente livres, mas expressam, ao mesmo tempo, a unidade do seu ser. Uma vez Olivia observou que ele é tão “na dele”, como  uma criancinha que não está nem aí pras convençōes, e pra uniformização do modo com que se faz as coisas.   Olivia esta certa. O caminhar de Txana reflete  a sua total espontaneidade, em que  corpo e emoçōes se refletem o tempo todo. Na verdade, Txana caminha com o coração, e com os elementos ao seu redor.
Sentou-se à nossa mesa, e pedimos o prato que ja sabemos ser  preferido por nós três, a muqueca de peixe, com caipirinhas de maracujá. Agradeci a Txana vir nos visitar de um momento pro outro. Ele parecia um pouco cansado, tendo vindo de trabalhos em lugares diferentes.  Lembrando-me da estória que nos contou da sua vida na cidade, para onde veio com doze anos, sem dinheiro e sem saber falar a lingua portuguesa, e lhe perguntei se durante aqueles anos tinha sido discriminado pelos colegas por ser índio. Embora sempre se diga que no Brasil não há racismo, ele acontece de maneira bem mais velada do que exclusão, ou agressividade física. Se revela o tempo todo, na atitude condescendente dos civilizados em relação aos nativos, uma expressão silenciosa de que cada macaco fique no seu galho.  Canso de ver pessoas civilizadas se comunicando superficialmente com os índios,  sem fazer qualquer esforço para compreender a profundidade das suas raizes.   Quando o homem da cidade fala em cuidar da natureza, por causa da ecologia, ele se preocupa com a sua própria sobrevivência e não com a natureza em si. Pragmatismo sobre qualquer respeito é a lei da sobrevivência. Os índios, por outro lado, respeitam a criação natural independentemente de interesse próprio, por que são humildes diante dela. Para eles a natureza é espírito, e não somente o que lhes enche a barriga.   
Mesmo que as fontes naturais do planeta fossem ilimitadas,  e ninguém precisasse se preocupar com sua escassez, eles não se dariam ao luxo do desperdício, ou do acúmulo de bens. Nunca estariam querendo se poupar com mais conforto, ou se amofinando na  busca de objetos industriais cada vez mais idealizados para “amaciar” a vida,  como querendo acenar a bandeira de eternidade através da matéria. Eles encaram a finitude do corpo como uma etapa na sua grande conexão com a criação. Não sofrem do medo que sempre nos faz pensar adiante; o planejar para se garantir, para se fragmentar, se impelir constantemente a um futuro que ainda não existe, ao “nada”. Txana me respondeu que pôde  se sentir estigmatizado por ser índio, e acrescentou, “ Mas aprendi muito com o vento…” Antes de lhe perguntar o que o vento lhe havia ensinado, me preparei para ouvir alguma explicação mítica,  distante e inacessível ao nosso modo de pensar. Algo que apresentasse o vento como alguma entidade da bela fusão que so eles sabem fazer, entre a natureza e o espírito. Mas a resposta de Txana foi tao simples como o seu caminhar, “O vento pode levar as coisas, eu só tinha que deixar o vento levar pra fora de mim tudo que me dissessem de ruim…” Me senti como o aluno de Zen Budhismo que ousou perguntar ao mestre de que exatamente se tratava a atitude Zen, e levou um tapa na cara. Como a resposta de Txana, aquele tapa não se tratou de uma  agressão vazia de sentido, mas um  chamado de volta ao som do silencio. A simplicidade de poder enxergar no vento, a limpeza da alma.

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