Tuesday, October 29, 2019

Espiritualidade Agressiva


   Chris chamou de espiritualidade agressiva a atitude de pessoas que vem prefaciar qualquer evento com termos supostamente espirituais,   Vamos segurar o espaço (hold the space)… vamos lembrar que somos todos conectados com a criação original, vamos  isso e aquilo”.
Espiritualidade virou  critério de diferença entre quem ta por dentro e quem não esta, pra maioria das pessoas que se considera espiritual. Virou produto e moda. Conhecemos gente que participa de círculos "espirituais" de maconha, de respiração, de peyote, de meditação “trans pessoal”, círculos para honrar o sagrado feminino, círculos de tudo que se pode imaginar, e se não incluo rituais de Ayahuasca entre eles é pra não jogar o sacramento da Floresta nesse saco“multi-místico” que lembra um “combo” do Mac Donald’s.

Nem de propósito, quando estivemos na California nos feriados de Natal e Ano Novo, encontramos, na casa que alugamos, milhões de exemplares de um livro de ensinamentos "espirituais", que era um grotesco "how to" (como fazer para) ser poderoso e conseguir sucesso, num mumble jumble de física e espiritualidade. O livro definia a graça religiosa, da seguinte maneira:
“Graça é o girar dos campos de torção que formam a matéria, a realidade, e a experiencia”.
 Pra completer a ideia geral do livro, nas credenciais do cara que escreveu o prefácio, foi mencionado o que ele próprio escreveu, sobre a ciência física de fazer milagres.

Eu tinha achado aquela casa bem legal, diante do mar e bem dividida internamente. Podia se ver o por do sol de cada uma de suas salas comunicantes, e da varanda a que davam acesso. Podíamos estar todos juntos naquela area sem nos sentir um em cima do outro, repartindo o mar, o céu e o sol, enquanto fazíamos coisas diferentes. A possibilidade de ter pessoas que amamos simplesmente respirando sob o mesmo teto que nós se revelou pra mim.  Ate perceber que a autora do livro era a proprietária da casa, eu tinha pensado que quem morava ali devia ter uma cuca boa. Mas quando pensei que aquele livro devia ter sido escrito ali, fiquei me perguntando como a autora dele pôde usar a vista do mar, do sol e do céu ali na frente, como pano de fundo pra sua vontade de explicar e dominar a divindade. 
Nem a paz da linha do horizonte, nem o azul do oceano pôde fazer com que baixasse as armas. Armas que se fantasiam de “ciência” para tirotear a liberdade do espírito, inventando regras para se aprender, obedecer, e fazer acontecer. 
Na terra do controle remoto, tudo tem que ser controlado. Mas pra espiritualidade dar a impressão de que pode virar opção de controle remoto,  tem de se tentar  transforma-la em ciência e roubar  seu mistério.
 O livro da proprietária  tinha  promessas veladas de sucesso financeiro. Claro. Quem quer controlar, quer dinheiro.  E quem  tem saco pra tentar aprender a controlar o mundo espiritual em favor próprio é incapaz de  baixar as armas, de, justamente, abaixar a cabeça e se render ao espirito. 

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