Saturday, November 9, 2019

Nala, o Silencio do Amor

 

Nala é a canina ideal. Nunca sujou a casa, nunca reclama quando temos que fecha-la em algum quarto quando pessoas estranhas aparecem, e sempre soube esperar a gente acordar pra lhe dar comida, fosse a hora q que fosse. E mesmo assim, antes de sair da cama que reparte com a gente, faz questão de esperar que eu lhe de carinho, antes de acompanhar o meu marido e ganhar dele a primeira refeição, la embaixo na cozinha. A excitação de esperar por sua refeição nao se compara `a alegria que toma conta dela quando percebe que vai passear la fora. Pega sua coleira nos dentes e vai desfilando ate a porta, altiva, misturando orgulho e dignidade. Ta na cara que ela valoriza mais repartir o mundo comigo num passeio, do que obedecer ao seu estômago. Por isso, nao gosto que digam que ela "vive pra comer". Falo que nao é nada disso. Mas as pessoas se fixam no cliche. Mais do que qualquer cachorro que conheci, Nala tem capacidade de maravilhamento. `As vezes me olha de um jeito que me cai a ficha que diz: "Seja quem o seu cachorro pensa que voce é". O olhar de Nala nesses momentos é tao comovente e tanto me santifica, que me sinto insignificante. O rostinho dela fica iluminado, e os seus olhos redondos e derretidos fixados em mim, como diante de um anjo, ou de Deus.
Dei a ela uma bola de plástico transparente, com um interior cheio de luzes coloridas que piscam sob qualquer atrito. Quando vi o fascinio com que Nala recebeu a bota, me perguntei porque pensam que cachorro nao ve cor. Ela estava siderada. Com a bola entre suas patas, parecia olhar para uma joia preciosa que podia amar e ao mesmo tempo possuir. Mordiscava a sua superfície com tal deleite e respeito, fazendo pausas para me olhar agradecida. Pensei que aquele brinquedo, que fôra feito pra crianças, era como a primeira boneca para uma menina, ou o anel de noivado para uma mulher. Nala fica em transe entre suas mordidas e as pausas que faz para apreciar a bola.
Meu vinculo com Nala é inesquecível. Eu, Olivia e seu pai, estavamos meio que acampados numa casa alugada, grande, decadente, e assombrada.
Olivia, no orgulho, intolerância, e suposta auto-suficiência dos seus quinze anos,  escolheu morar no basement da casa e fazer daquela grande extensão húmida, escura, e segundo ela própria, preferida dos fantasmas, a sua área. De noite, tirava Nala de mim e a levava  Nala pra dormir com ela porque tinha medo. Naquela vez, eu tinha descido cautelosa para desejar Olivia boa noite. Até bem pouco tempo, ela fôra minha filha-amiga- de -copo- e de cruz, mas no meu geriátrico relógio interno, passou da noite pro dia a me olhar com pra alguem que de quem tinha vergonha. A esse ponto sei que sou e sempre fui "a misfit" e não deve ser fácil ser meu filho e querer me adequar ao mundo. Mas pra mim também não é fácil lidar com a critica deles, e eu estava na pior. Nala estava deitada numa almofada no chão e dava pra ver que ela, de quem meu filho Chris recentemente tinha se despedido pra viajar e a deixado comigo, estava num limbo, assim como eu, que sem conhecer ninguém numa cidade nova e numa casa decrépita, com marido ausente em viagem e filha adolescente estranhando, me sentia ignorada pelo mundo.
A TV na parede acabava de mostrar a cena do filme Life of Py, em que o menino, dentro do barquinho quase naufragando, grita para o tigre que vinha tentando salvar contra todas as circunstâncias dificeis do meio de um oceano infinito, ”We are dying, Py!”
Minha filha estava no seu computador e revirou os olhos quando eu lhe disse boa noite. Contendo as lagrimas antes de sair do quarto, vi Nala jogada ali numa almofada no chão, como o tigre no banco do barco, eu e ela, deixadas pra trás e tendo deixado tudo pra trás.  
Num impulso, me abracei com ela, ” Good-night, girl, I love you”. Ela me olhou, “dizendo” que entendia, tenho certeza. E nunca mais me trocou por Chris,  que acabou deixando ela de vez comigo. Diferente de nossos outros cachorros, que sempre preferem, como ele diz, o "seu pack", Nala foi fiel a mim durante todo o resto de sua vida. Eu pensava que meus dias se acabariam com os dela por causa do nosso vinculo, da solidão mutua que nos unia.
Nada é mais sublime do que o amor incondicional. Ate hoje, me pergunto se não teria sido melhor que meu tempo terminasse com o dela. Eu e ela, minha Nala girl!

Friday, November 8, 2019

Sua Majestade, o Avião

Depois de muito bate boca no aeroporto, onde o pessoal da United não queria honrar o que nos informaram no telephone ao vender as passagens do Colorado ao Brasil, achei que ia desistir da viagem. O último “não pode” da United não tinha sido informado no check in on line, nem na compra da passagem pelo telephone e, ao contrário do que nos haviam assegurado, eu não poderia checar minha bagagem de lá até o Brasil. Queriam que eu a retirasse em Houston, e fizesse novo check in. Mas eu só teria uma hora e meia em Houston, o lugar de conexão, e ficaria apertado, afora o fato de que se haviam garantido o contrário, deviam ver que nós, passageiros, ainda não viramos de todo aquela “boiada” sem direito e sem pensamento próprio, e que eles ora dirigem pra cá, ora pra lá, a seu bel prazer.
Falei que não pegaria a mala em Houston, e se não houvesse outro jeito, que nos devolvessem as milhas, e veríamos isso em juízo. Eu estava mandando qualquer coisa; só sabia que não faria novo check in em Houston com aquela mala enorme, e pouco tempo. Parecia birra, pois tanto a funcionária da UA, quanto o meu marido, me asseguravam que eu teria tempo o suficiente. Enquanto eu insistia, batendo o pé no chão, que NÃO iria mais viajar se tivesse que fazer aquilo. Depois que 4 funcionárias vieram examinar o nosso problema, insistindo que não tinha jeito, a quinta delas resolveu refazer as passagens, a meu pedido. Cumprindo assim, uma das exigências burocráticas da companhia, que até então nunca fora preciso, ela informou que a bagagem, afinal, seguiria dali diretamente para o Brasil.
A resolução daquele conflito levou bastante tempo, de modo que tive que ir às carreiras para o portão do meu avião pra Houston, onde faria a tal conexão de curto tempo para o Rio, durante a qual eles ainda esperavam que eu me esbaforisse pra pegar e novamente despachar a minha mala, tendo que passar de novo com todo o resto das minhas coisas pela segurança, que todos sabemos o quanto pode demorar. Liberada pela quinta funcionária, corri para o portão de embarque e fui informada que o avião não estava podendo pousar durante a hora seguinte, por causa dos ventos nas Montanhas Rochosas.
Claro que eu nunca teria tempo de checar mala nenhuma em Houston- como eles haviam a princípio insistido- pois talvez nem conseguisse chegar lá a tempo de pegar o vôo para o o Brasil. Dormir em Houston pra pegar o do dia seguinte, nem pensar. Talvez voltar pra minha casa em Boulder, dali mesmo. Mas pra isso, eu teria que ir num customer service, pra tentar recuperar a tal mala que fôra despachada com tanto custo, para que não seguisse viagem sem mim. Sem saber o que fazer, fiquei me queixando no telephone para gregos e troianos, e todos me aconselhavam ter paciência. Mas como, se diziam que o avião estaria atrasado por uma hora ou mais? Não tinham realmente previsão. Se fosse só uma hora, eu poderia ainda ter tempo de me lançar `as carreiras de um portão ao outro, no aeroporto de Houston, mas se fosse mais do que isso, eu iria a Houston pra passar a noite la e preencher formas, para que minha mala fosse retornada.  Ja estavam avisando que um dos aviōes que não pudera pousar fôra desviado para Fort Collins. Melhor mesmo começar a bater em retirada e adiar a viagem para o mês seguinte, ou, do jeito como eu estava estressada, sabe se la pra quando.
Descarregando a minha irritação naquele pensamento, quando eu menos esperava, começo a ver, daquele mesmo portão onde embarcaríamos, um monte de gente saindo. Que avião havia chegado sem ser anunciado? Ali naquele portão, só podia ser o nosso, o de Houston… E era! Havia alguma chance. Afinal, melhor prosseguir. Só devia estar preparada para, tão logo chegasse em Houston, correr pra fora daquele veículo celeste o quão rápido possível, para seja lá onde fosse o portão do que iria pro Brasil.
Ouvi musica durante o vôo, e aquela parte inicial da viagem passou rápido. Eu estava na primeira fila no interior do avião, e mesmo sabendo que ainda havia pessoas dentro dele com conexōes mais breves do que a minha, na hora em que paramos no portão de chegada, me lancei corredor acima e porta afora, puxando minha bagagem de mão, sobre as rodinhas que nessas horas fazem milagres, e logo me vejo entre outros vários passageiros desabalados por corredores que pareciam infinitos. Digamos que se meu portão fosse, por exemplo, na letra C41, eu havia saído no A1, tendo então pela frente os super longos corredores da letra A, B, e mesmo C, até o local de embarque do meu segundo avião. Mas não só consegui como, fazendo parte do grupo 1, fui uma das primeiras a entrar.
O oco interior da elipse esterilizada do frio veículo alado, exato, e preciso, foi a recompensa depois de tantos conflitos, tumulto e correria, o espaço incólume além da burocracia e passaportes, e alem do bem e do mal, quando as identidades, já provadas, discutidas, examinadas, já não significam mais nada.
Quando se entra num avião, cada pessoa não é mais do que o voto de fé incondicional na tecnologia. A terra, ou o chão, que sob qualquer outro veículo representa salvação na possibilidade de num enguiço sair e andar com nossas próprias pernas, sob o avião passa a significar o que deve ser evitado a qualquer custo até o momento de aterrissagem. Pois antes disso, aquilo que é normalmente solidez e firmeza sob nossos pés, o próprio palco do desenrolar de nossa vida, passa a representar morte. Dentro do veículo voador que opera, durante seu percurso, essa total inversão de horizontes, transformando o ar em chão, e o chão em “fim”, nos entregamos por inteiro, conscientes ou não.
Por isso, a sensação de me jogar no meu determinado assento é sempre de imenso alivio e absoluta liberdade. Dali pra frente, não mais responsáveis por nós mesmos, temos que ficar em nossos assentos, e, sem nada poder fazer, fora e acima do mundo, somos obrigados a “deixar rolar” e ficar consigo próprio. A transição entre um lugar e outro, nas asas artificiais da velocidade, nos permitindo esse momento de meditação, leitura, ou reflexão, na entrega aos desígnios de Deus pela criação artifícial, reune novamente todas as partes do nosso eu que foram fragmentadas pelo caminho, e pela vida. Ninguém vai nos chamar ali, ninguém vai nos pedir alguma coisa, ou esperar isso ou aquilo de nós.
O avião, alcançado depois de esforço, planejamento, despesa, confrontos com burocracia, tecnocracia, polícia de segurança e, como nessa vez, lutas no aeroporto, é a majestade que tem, dentro de si, nosso reencontro com nós mesmos, nos içando sobre o mundo. Na exatidão do seu interior, podemos revisitar nossos vagos sonhos e pensamentos negligenciados.
Aviōes são escravos reis escravos. Violam distancias com submissão imperativa e precisão categórica. Acima das curvas das nuvens de cores madrepérola, onde anjos se escondem, o pássaro artificial perfura, imperdoável, o azul do céu, unindo servidão e libertação, confinamento de nosso corpo e vôo de nossa alma. Veículo da velocidade e da contemplação, soberanos a que entregamos nossa vida, e servos que anulam as distancias que queremos transpor. Seres da transição, promovendo a contemplação. Confinamento obrigatório, na ascensão do coração.
E assim ele começa a se mover comigo em seu interior, vagaroso a princípio mas determinado, até que se iça, furando a atmosfera com a certeza da geometria e a determinação da paixão, como que num aéreo ato de sexo entre a natureza e a máquina. Dentro dele, participamos, com nossas vísceras e nossa mente, na comunhão da ascensão com a velocidade, na vibração do motor em nosso âmago e na infinitude do azul.
Sua majestade, o avião.

Txana e o Vento



Numa última noite de uma visita ao Rio, eu e minha filha Olivia nos vimos sozinhas, sem ninguém de quem nos despedir. Eu que nasci naquela cidade, ja não era mais parte da rotina dos habitantes, mas tampouco era turista. Gostaria de encontrar alguma coisa pra fazer que distraísse Olívia, que lhe desse a sensação de participar um pouco mais daquela cidade que ela tanto adorava. Mas o que?
Foi então que   Txana telefonou, e disse que viria jantar conosco, ali no hotel onde estávamos, cujo restaurante é em frente à praia do Arpoador. Eu e Olivia escolhemos  uma mesa ao ar livre, na calçada, e ficamos esperando. Mas como o restaurante pode ser acessado pela praia e pelo hotel, cujo lobby dá pra rua, ficamos de olho nas duas entradas. Dali a um tempo distinguimos a silhueta de Txana  caminhando na calçada do  mar e vindo ao nosso encontro.  O vento soprava, e, a despeito das luzes dos postes que iluminam a praia, a imagem de Txana, andando livremente, não era nítida, como que misturada ao movimento dos próprios elementos; do mar, da brisa, e das gradaçōes da luz. So então percebi que ele caminha de um modo totalmente diferente dos outros. Percebi que não era a pouca luz, ou o caos que o vento causava  nas formas visíveis, como nas folhas dos coqueiros que pareciam se mexer em todas as direçōes, que nos impedia ver Txana com clareza.  Era a sua própria maneira de andar. Enquanto na maioria das pessoas, a parte inferior do corpo se mexe praticamente independente da superior, todo o ser de Txana participava do seu caminhar,   como uma alga nadando no mar. Se a perna direita era a que vinha na frente, todo o lado direito de seu corpo parecia prolongar o movimento dela em linhas invisíveis, e reciprocamente, quando era a vez da perna esquerda.  A principio, lembrei-me de  Mogli, no filme Disney  “The Jungle Book”. Pensei que seria o andar adequado `a floresta,   mas me lembrei de outros índios que conheço e  que não caminham daquele jeito.  Txana é único  nos menores movimentos, que são absolutamente livres, mas expressam, ao mesmo tempo, a unidade do seu ser. Uma vez Olivia observou que ele é tão “na dele”, como  uma criancinha que não está nem aí pras convençōes, e pra uniformização do modo com que se faz as coisas.   Olivia esta certa. O caminhar de Txana reflete  a sua total espontaneidade, em que  corpo e emoçōes se refletem o tempo todo. Na verdade, Txana caminha com o coração, e com os elementos ao seu redor.
Sentou-se à nossa mesa, e pedimos o prato que ja sabemos ser  preferido por nós três, a muqueca de peixe, com caipirinhas de maracujá. Agradeci a Txana vir nos visitar de um momento pro outro. Ele parecia um pouco cansado, tendo vindo de trabalhos em lugares diferentes.  Lembrando-me da estória que nos contou da sua vida na cidade, para onde veio com doze anos, sem dinheiro e sem saber falar a lingua portuguesa, e lhe perguntei se durante aqueles anos tinha sido discriminado pelos colegas por ser índio. Embora sempre se diga que no Brasil não há racismo, ele acontece de maneira bem mais velada do que exclusão, ou agressividade física. Se revela o tempo todo, na atitude condescendente dos civilizados em relação aos nativos, uma expressão silenciosa de que cada macaco fique no seu galho.  Canso de ver pessoas civilizadas se comunicando superficialmente com os índios,  sem fazer qualquer esforço para compreender a profundidade das suas raizes.   Quando o homem da cidade fala em cuidar da natureza, por causa da ecologia, ele se preocupa com a sua própria sobrevivência e não com a natureza em si. Pragmatismo sobre qualquer respeito é a lei da sobrevivência. Os índios, por outro lado, respeitam a criação natural independentemente de interesse próprio, por que são humildes diante dela. Para eles a natureza é espírito, e não somente o que lhes enche a barriga.   
Mesmo que as fontes naturais do planeta fossem ilimitadas,  e ninguém precisasse se preocupar com sua escassez, eles não se dariam ao luxo do desperdício, ou do acúmulo de bens. Nunca estariam querendo se poupar com mais conforto, ou se amofinando na  busca de objetos industriais cada vez mais idealizados para “amaciar” a vida,  como querendo acenar a bandeira de eternidade através da matéria. Eles encaram a finitude do corpo como uma etapa na sua grande conexão com a criação. Não sofrem do medo que sempre nos faz pensar adiante; o planejar para se garantir, para se fragmentar, se impelir constantemente a um futuro que ainda não existe, ao “nada”. Txana me respondeu que pôde  se sentir estigmatizado por ser índio, e acrescentou, “ Mas aprendi muito com o vento…” Antes de lhe perguntar o que o vento lhe havia ensinado, me preparei para ouvir alguma explicação mítica,  distante e inacessível ao nosso modo de pensar. Algo que apresentasse o vento como alguma entidade da bela fusão que so eles sabem fazer, entre a natureza e o espírito. Mas a resposta de Txana foi tao simples como o seu caminhar, “O vento pode levar as coisas, eu só tinha que deixar o vento levar pra fora de mim tudo que me dissessem de ruim…” Me senti como o aluno de Zen Budhismo que ousou perguntar ao mestre de que exatamente se tratava a atitude Zen, e levou um tapa na cara. Como a resposta de Txana, aquele tapa não se tratou de uma  agressão vazia de sentido, mas um  chamado de volta ao som do silencio. A simplicidade de poder enxergar no vento, a limpeza da alma.

Feliz Ano Novo 2018

Quando me mudei para os Estados Unidos, estava longe de imaginar que na vista de muitos, “virei a casaca”.  Me tornei  cidadã americana para facilitar minha situação legal de mãe de familia americana, pois não me considero pertencente a nenhum país ja que acho qualquer pessoa um cidadão da humanidade.
O motivo que me faz ver em cada um o individuo que é acima de condicionamento e circunstancias é o fato de que o meu imediatismo fala mais alto e nunca fui capaz de avaliar alguém através da sua cultura, nunca foi natural pra mim "contextualizar".
Voltando `a minha mudança radical, quando fui primeiramente morar numa cidade rural em Iowa, que tinha somente 60 mil habitantes, muitos achavam que não iria dar certo. Sair do permissivo Rio de Janeiro para um lugar pequeno, provinciano, super católico, considerado pelos próprios americanos como a cidade mais racista do país, pra estar com um cara de formação completamente diferente , não poderia dar certo. Todos viam o contexto acima de tudo, enquanto eu so via o nosso caso individual. Eu e o cara nos apaixonamos, eu confiei nele e percebi que ele apreciava o filho que eu ja tinha e que trouxe comigo. Ponto. O que se passaria entre nossas quatro paredes era o que contava.  Morei 14 anos naquela cidade, e não foi fácil mas nada é fácil em lugar nenhum. Nesse sentido, deu mais certo pra nos do que da pra muitos que sao da mesma cultura e se juntam. O frio, que `as vezes chegava a 30 C abaixo de zero, não era problema, mas era sufocante a mentalidade paroquial das pessoas, o fato de não haver estrangeiros, e o clima “incestuoso” de um lugar em que não existe anonimidade e todos viram o juiz do proximo. Meu sotaque envergonhava meu filho, quando ele estava naquela idade em que as crianças esperam que seus pais sejam como todos os outros. Uma vez, telefonei para a casa de um amigo dele, pra saber quando deveria busca-lo, e foram lhe dizer que alguém que “não falava ingles” queria falar com ele. Aquilo foi suficiente para ele me dizer furioso que não telefonasse mais pra casa dos seus amigos. Não sei se tive mais pena dele do que de mim mesma, quando fui chorar o caso ao meu marido. “Mas voce fala ingles muito bem!” ele disse.
Varias vezes pensei em fazer minhas malas pra voltar pro Brasil, e se isso não aconteceu, foi porque “as quatro paredes” ainda estava dando certo, e mesmo que aos trancos e barrancos, se sobrepondo ao contexto. A minha diferença não deixava de ser bem acolhida pelos locais, que me olhavam como um ser exótico, um animal interessante no zoológico.
Lá, so tinha um shopping caindo aos pedaços e um cinema onde o ar era sempre viciado. E so mostrava blockbusters americanos. Mas tinha tambem uma pequena estação de sky, e pra ficar em contacto com a natureza, me lancei no snowboard já na meia idade, quando Olivia, a filha que tive naquela cidadezinha, era ainda bebê. Mesmo assim insisti no snowboard durante cinco invernos e parei na emergencia médica em todos os cinco. No primeiro, quebrei o pulso e passei três meses com o braço engessado. Para trocar a fralda de  Olivia tinha que usar um braço de um lado e a boca de outro, como um cachorro. Mas insisti no esporte, ate cair a ficha de que sem poder contar com ninguém pra me ajudar a cuidar de Olivia, eu não podia me dar ao luxo de me machucar.
Depois de morar naquela cidade durante catorze anos, vi que Olivia estava sendo discriminada pelas amigas, porque eu tinha a escultura em mármore de um casal nu que papai fez, exposta  na minha sala. A principio, eu mostrava a escultura com orgulho para as pessoas, sem a menor ideia de como se chocavam, quando desviavam os olhos dela. A mulher do casal vizinho, cuja filha era amiga de Olivia, condenava ter de me ver de mãos dadas com meu marido na varanda. Vim a saber que ela declarou que nos nao éramos bons exemplos para crianças. E era uma mulher metida a alternativa, que pregava Yoga e meditação, e aliás, gostava de encher a cara. Acho que eu fiquei dez vezes mais chocada com ela do que ela comigo. Mas o que interessa é que percebi que se não saíssemos de la, Olivia eventualmente começaria a me discriminar em favor dos amigos, ou discriminar os amigos a meu favor.
Assim se iniciou, para nossa familia, uma série de mudanças pelo país, e viemos, finalmente, parar em Boulder, essa bolha meio que fora da realidade americana, cheia de pseudo iluminados, estudantes, maconheiros, e esportistas.
O nosso caso individual continuou a se arrastar. Lenta e dolorosamente, acabei reconhecendo a influencia do contexto sobre nos e os outros. A força das diferenças culturais, e de tudo que não é nem eterno e nem inato. O que torna os Estados Unidos um país odiado ao mesmo tempo que admirado, copiado,  e forjado, e que faz aqueles que vem morar nele ficarem “suspeitos” para muitos. Percebi o que me fez ter pena dos mexicanos do resort em Tulum de onde acabamos de chegar, no seu desespero de replicar uma realidade americana, que de México não tinha nada.
Assim como a intensidade atemporal que as ruínas Maya transmitem, sobrepondo-se `a profanidade do nosso  mundo,  continuo acreditando no poder de cada um daqueles empregados do resort, se quiser e se ousar,  se sobrepor ao seu contexto descaracterizado. E com essa fé em cada um, cada qual, desejo a todos Feliz Ano Novo!

A Transgressão da Inocência



Quando ele entra correndo no meu quarto na euforia esfuziante da confiança plena, deixo tudo que estou fazendo, como que diante de uma revelação.

   Passei momentos difíceis em Barcelona com saudades dele. Embora meu marido tenha confessado me achar maluca o suficiente pra chegar ao ponto de cancelar a viagem por causa “dele”, ficou chocado quando sugeri voltarmos mais cedo pra casa para que eu pudesse reencontra-lo logo. A cidade da religiosidade encantada de Gaudi e de tanta arte e beleza não aliviava a minha sensação de ter me traído por me afastar do “nosso” cachorrinho filhote. Na verdade, ele pertence `a nossa filha, que mora numa ala auto-suficiente da casa. 

 Quando de manhã ela abre sua porta de comunicação e logo o cachorrinho, que ela chama por Bowie, vem galopando no corredor, suas patinhas macias se sucedendo com a impulsividade aveludada de uma tempestade de pétalas dentro da minha cabeça, a alegria se anuncia pra mim como redenção do que até então tinha sido um mundo sério, auto-importante, e cobrador. 

A inocência de um cachorrinho, alegria em si e sem causa, é a alegria da própria alegria. Faz pensar que o mundo é bom por lhe dar lugar. O cachorrinho é presente, passado, e futuro. Ele é aquele bebê que tinha se perdido na gente, o aqui agora do amor, e ao mesmo tempo a promessa do amanhâ. O cachorrinho é uma luz clareando o caminho, um presente que veio do amor, e uma doçura que faz acreditar. 

   Nosso Bowie é da mesma raça da cadela do filme A Dama e o Vagabundo. Tem orelhas compridas de pêlo longo formando cachinhos que parecem ter sido feitos por um cabelereiro. Tem os mesmos olhos sonhadores da Dama, o mesmo perfil com boca que parece cair antes de subir nas extremidades, de modo que olhado de lado ele é sorriso eterno, enquanto que de frente parece um pouco triste. Até assisti o desenho animado de novo por causa dele e percebi outra característica irresistível de sua raça no seu jeito de pedir carinho antes de qualquer coisa. Ao invés de pular em cima da gente, ele se deita de costas no chão e oferece sua barriguinha.

   Antes de viajar, eu andava pensando em como sou sortuda de poder curtir um cachorrinho sem precisar ser responsável pelo seu treino, por ter que leva-lo ao veterinário, ou atender suas necessidades básicas a não ser quando minha filha está na faculdade. Bowie cresce e muda bem mais rápido do que um filhote de gente, e em Barcelona, me perguntava como que sabendo disso pude me afastar da sua infância tão passageira. Mesmo que só fossemos ficar duas semanas longe, doía pensar que quando voltássemos ele ja teria mudado. 

 Parece milagre que inteligência, amor, e até ironia, que ele mostra no jeito de olhar pra mim, caibam dentro de uma cabecinha tão pequena como a dele, e na intensidade com que seus olhos redondos expressam o que ele quer de nós. Não queria perder nenhuma etapa do seu crescimento, deixar de curtir o amor  da comunicação incrível que essa “criancinha” animal desenvolve com a gente a cada dia. A união do mistério de sua alma com o milagre do seu amor eram pra mim a resposta do universo a todas as perguntas. Os que pensam que a boa relação dos cachorros com os humanos resulta do puro instinto de sobrevivência dos caninos, por eles serem dependentes de nós, deveriam notar que a alegria de um cachorrinho transmite a confiança no paraíso, de onde ele deve ter vindo. 

Totalmente desarmado, ele transgride o mundo em que se deve lutar e nos traz a liberdade absoluta, a que começa por nos tornar livres de nós mesmos. Por isso, quando eu estava em Barcelona, preferia estar no paraíso.









De Pássaro a Espírito

Estava no quintal com os dois cachorros, Nala e Bowie,  para que eles fossem ao seu banheiro natural, e na espera, eu poder fumar um charutinho. Bowie sabe que foi feito para ser mimado; sua raça, Cavalier King Charles, ganhou esse nome porque o rei  Charles não ia para lugar nenhum sem a companhia de alguns deles. Bowie tem 6 meses, é super mimoso, ao mesmo tempo que`e caçador. Desajeitado na escolha da caça, tentando abocanhar tudo que é menor que ele, de folhas no vento, como formigas e borboletas, e esquilos. Nesses momentos, eu puxo a sua coleira. Mas como o quintal é fechado, nem ele, nem Nala, precisam coleira.
“Quando vão fazer o que tem que fazer?”, eu me perguntava enquanto os assistia, sentada no banco que balança.
Num dado momento, em que Bowie fuçava à volta de uma arvore, ergue-se um passarinho de trás dela, num voo rasteiro de filhote, que o levou até o canteiro do outro lado, onde ele se escondeu sob um emaranhado de arbustos. Bowie é super veloz, tem uma coluna super flexível e corre aos pulos, como um coelho. Rapidamente alcançou o ponto em que o passarinho tinha se escondido, e de onde eu estava, só podia vê-lo de costas, xereteando os  arbustos.
Sentada no chão, Nala, que `as vezes também tenta caçar, só fazia assistir, ou por indiferença, ou por ter compreendido que não lhe permitimos matar bichinhos.   Na fração de segundos em que vi Bowie sobre a coberta verde do passarinho, corri pra lá, com o coração na mão, ja imaginando ter que libertar o filhote dos dentes caninos, ou vê-lo sangrando, na terra. Cenas de correr para emergencia veterinária, Steve dirigindo, e eu segurando nas mãos a agonia de um pássaro; talvez vendo-o morrer antes de chegarmos na clinica, ou de nem precisarmos ir, ele aparecendo na terra já destruído assim que eu levantasse Bowie dali, se alternavam na minha cabeça, e nos sobressaltos do meu coração.
Naquele breve instante, vivi um dia inteiro de sofrimento, e respirei fundo, no momento definitivo. Era agora, quem sabe tinha chance de salvar o passarinho. Agarrei Bowie pelas costas, e o suspendi com as duas mãos. O pássaro, que era um Robin, se encontrava ainda de asas semi-abertas, quase deitado  entre a cerca e os arbustos, bico aberto, olhos assustados, na entrega do desespero. Uma das asas estava mais aberta que a outra, e me fez temer que Bowie a tivesse quebrado, mas não vendo resquícios de sangue, nem ouvindo pios de dor, libertei a mão esquerda, envolvendo o pequeno pássaro e o levantando dali, enquanto mantinha Bowie rente ao chão com a mão direita.
Bowie de um lado,  passarinho assustado de outro, determinação aqui,  fuga ali, ferocidade à direita, medo á esquerda,  rasgando-me em duas para mante-los afastados e sem poder libertar nenhum. Foi então, que vi outros Robins pousados na cerca, assistindo o que se passava, como se fossem a familia do passarinho.
Um deles olhou para mim fixamente, e sua cabecinha cor de terracota realçava os dois pontinhos de luz de seus olhos penetrantes, cujo brilho cintilante vinha daquele ponto que a profundeza de seu ser, e a altura do céu, o lançava rectilíneo, determinado, e intenso, dentro da minha alma, refletindo, na gratidão dourada do final da tarde, a mistura de alegria, limpidez, e certeza.
A mensagem daquela carinha iluminada era inexorável e extrema. So podia vir da mãe do passarinho. Sob um halo de sol, o seu agradecimento ecoava no languido fosforescer daquele final de tarde, iluminando e celebrando  o salvamento do passarinho. Vi tudo tão rápido, enquanto ainda pressionava Bowie se esperneando, e segurava o pássaro resgatado. Quando outros de seu tipo se aproximaram, parecendo pedir a sua devolução, eu me estiquei um pouco mais consegui coloca-lo na cerca, perto de sua mãe.
No simbolismo psicológico, pássaros representam espírito. No contexto utilitário da sobrevivência, eles são vistos ou como presas ou como predadores. Mas o que senti ao salvar aquele Robin, entre seres e elementos da natureza conspirando a seu favor, mais do que alívio, foi um momento  único de liberação. Predador ou presa, animal ou símbolo, o pássaro que salvei também me salvou.

Idioma Universal


Crescendo com o Idioma Universal


   Enquanto o ingles é universal no campo tecnológico, eletronico, no Rock'n Roll, e ainda na comunicação verbal mais imediata, meus  animais me ensinaram que a língua universal, a que plantas, animais e humanos respondem, é o amor.
 Temos uma cadela e um passarinho connure, o tal que parece um papagainho. Entre os que tivemos no passado, os mais notaveis foram um hamster e dois peixinhos que viviam em aquários individuais. Um desses era Beta, e o outro, cor de laranja, é chamado aqui de gold fish. Minha filha Olivia, que so tinha sete anos, ganhou ele numa feira escolar. Chegou em casa segurando um saquinho cheio de água em que ele nadava, dando voltas repetidas. Já tínhamos ouvido dizer que esses peixinhos não duram muito, e quanto ao Beta, quando o compramos, informaram que poderia viver no máximo uns três anos, o mesmo tempo que deram ao Hamster, que também foi comprado.   
   Olivia e eu, que temos o mesmo jeito de gostar de animais,  desenvolvemos uma comunicação totalmente voltada para eles.  Notamos as suas reações, percebemos sua inteligência, que cada qual tem de um tipo, e incluímos os que não vivem dentro d’água nos nossos abraços e beijos. Irmanados em comunhão, eu, ela, e o ser “irracional” viramos uma só entidade, por isso, do momento em que nos veem juntas, qualquer um deles tem, ou teve,  o hábito de vir exigir seu lugar entre nós. Os peixinhos quando me viam faziam mil acrobacias dentro da agua, e até vinham pra superfície dos seus aquarios para que eu lhes afagasse a cabeça, depois de comerem.
   Cada um desses bichinhos tem uma estória incrível, e todos bateram records de longevidade, a não ser a cadela, porque ainda é jovem.   Os peixinhos e o hamster viveram mais de quatro anos, e o passarinho, que viveu uns catorze anos depois que o compramos sem nem saber a sua idade, superou muitas  adversidades incriveis, que mencionei no blog "O passarinho foi pousar lá na lua".

   Amar é individualizar, ver o unico do ser amado. Ele assim renasce e agradece. E como.